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Revista M&T - Ed.75 - Fev/Mar 2003
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OBRA

O sertão vai virar mar

Quantas vezes essa profecia de Antonio Conselheiro foi repetida em vão. Desta vez é diferente. Falta realmente muito pouco para a conclusão do Açude do Castanhão no Ceará.

Um bloco de pedra com a enigmática inscrição “REGIÃO SÃO SALVADOR CAVERNA DO MISTÉRIO OBRA DO FIM DOS TEMPOS 1892” foi encontrado durante as escavações iniciais das obras do Açude do Castanhão, hoje em fase final de execução, no leito do Rio Jaguaribe, em Alto Santo, Ceará, a 235 quilômetros da capital, Fortaleza. Há os que veem nessa inscrição um vaticínio sobre a construção do açude — um sonho que remonta aos idos de 1910, quando o engenheiro Roderic Crandall, instalou-se numa caverna (a “Caverna do Doutor”, onde hoje está construída a tomada d’água) e iniciou os estudos geológicos e topográficos para a construção do açude. No imaginário da popula


Quantas vezes essa profecia de Antonio Conselheiro foi repetida em vão. Desta vez é diferente. Falta realmente muito pouco para a conclusão do Açude do Castanhão no Ceará.

Um bloco de pedra com a enigmática inscrição “REGIÃO SÃO SALVADOR CAVERNA DO MISTÉRIO OBRA DO FIM DOS TEMPOS 1892” foi encontrado durante as escavações iniciais das obras do Açude do Castanhão, hoje em fase final de execução, no leito do Rio Jaguaribe, em Alto Santo, Ceará, a 235 quilômetros da capital, Fortaleza. Há os que veem nessa inscrição um vaticínio sobre a construção do açude — um sonho que remonta aos idos de 1910, quando o engenheiro Roderic Crandall, instalou-se numa caverna (a “Caverna do Doutor”, onde hoje está construída a tomada d’água) e iniciou os estudos geológicos e topográficos para a construção do açude. No imaginário da população jaguaribana a mensagem, revolvida pelas obras iniciadas em 1995, também pareceu significar o fim dos tempos de miséria e abandono.

Não é para menos. O Açude Público do Castanhão é o maior projeto hídrico em construção no Nordeste. Quando concluído, terá uma capacidade de armazenamento de 6,7 bilhões de m3 de água e será estratégico para garantir o abastecimento das cidades do Baixo Jaguaribe, da própria capital do estado, e do Complexo Industrial e Portuário do Pecém. A obra também permitirá a irrigação de 43.000 ha de terras férteis do Chapadão do Castanhão e da Chapada do Apodi e irá contribuir para a geração de energia e o controle das cheias, além de impulsionar setores como a pesca e o turismo. A estimativa é que o açude Castanhão beneficiará cerca de 2,6 milhões de habitantes, gerando 90 mil empregos. 96% executado - Hoje, o percentual executado é de %, faltando apenas 8 metros de altura entre as cotas 103 e 111 metros (acima do nível do mar) para que a barragem atinja a capacidade máxima de armazenamento. Atualmente, o açude já pode acumular 3 bilhões m3 de água sem comprometer as condições normais de operação. Para a conclusão da barragem, de forma que o açude atenda às finalidades previstas de projeto, há necessidade de uma verba suplementar estimada entre 15 e R$ 18 milhões - cerca de 4% dos recursos já investidos. Muitas empresas estão envolvidas no projeto, assinado pelo Consórcio Hidroservice - Noronha/Engesoft e executado pela Construtora Andrade Gutierrez. A responsabilidade final, no entanto, é do próprio DNOCS — Departamento Nacional de Obras contra as Secas, órgão público federal subordinado ao Ministério da Integração Nacional, que realiza a obra em convênio com o Governo do Estado do Ceará. Getúlio Peixoto, engenheiro residente do DNOCS nas obras, explica que o açude consiste basicamente na execução de uma barragem de terra e blocos de concreto com 60 metros de altura e 3,5 quilômetros de comprimento, no leito do rio Jaguaribe, e de um lago artificial com 48 quilômetros, na sua maior extensão, que cobrirá uma área de 32,5 mil hectares na sua cota 100 (nível normal de operação) e de 60 mil hectares na cota de enchente máxima provável.

O Castanhão, lembra ele, é a última opção de represamento e administração das águas do rio Jaguaribe, que, depois, se perdem no oceano. “Ele cumpre uma dupla função estratégica : assegurar água durante os períodos críticos e conter as enchentes nos anos especialmente chuvosos. Adicionalmente, o projeto prevê a instalação de uma pequena central hidrelétrica (PCH), com capacidade para gerar 22,50 megawatts”.

Segundo Getúlio Peixoto, a despeito de sua aparente simplicidade, as obras do Castanhão têm exigido soluções arrojadas de engenharia para superar desafios inerentes ao seu porte e à sua localização em uma região com sérias deficiências de infra-estrutura viária, energia, água e telecomunicações. Sem falar no impacto econômico, social e ambiental no entorno das cidades de Alto Santo, Jaguaribara, Jaguaribe e Jaguaretama. Desde o início, o planejamento executivo da obra teve que levar em conta, por exemplo, a sazonalidade de chuvas na região. Com isso, cada ano (12 meses), foi dividido em dois períodos distintos^ um, de janeiro a maio, no qual ocorrem as chuvas, podendo o rio ter uma vazão de 4.228 m3/s; outro, de junho a dezembro, quando as chuvas são poucas, mas estima-se que o rio tenha uma vazão de 50 m3/s. Essa particularidade norteou todo o cronograma das obras de “barramento”, com extensão total de 10,50 Km e perfil topográfico variando de 39 a 111 metros (tendo como referencial a cota 0, a nível do mar). A execução dos serviços contidos entre as cotas 39 m e 65 m - trecho central da calha do rio - foi planejada para o período de junho a dezembro. Já os serviços nos trechos entre as cotas 65 m e lllm, por outro lado, foram distribuídos em todos os meses do ano. Assim, puderam ser executadas somente no segundo semestre de cada ano (junho a dezembro) as obras fundamentais no trecho central. A começar, pelas ensecadeiras de pequeno porte — obras provisórias e necessárias à execução posterior da Tomada d’Água (tipo torre-galeria) e da Casa de Válvulas, dimensionadas para controle de vazões de até 100 m3/s. Outra obra, que também teve que ser executada nesse período do ano, foi a de preparação da fundação da Barragem no trecho de 640 metros de extensão (entre as cotas 39 m e 65 m), na calha central do rio.

Esse trecho da barragem, aliás, constituiu-se em um desafio à parte na execução da obra. A fundação, lembra Getúlio Peixoto, foi executada retirando-se uma camada de areia grossa e fofa, com permeabilidade superior a 1 x 10-2 cm/s e espessura variando de 10 m a 21 m.”Em duas ocasiões, o topo rochoso mergulhava em talude negativo formando canais muito irregulares. O trabalho foi meticuloso, para escavar abaixo do nível d’água, tratar o topo rochoso e dar partida nas primeiras camadas de concreto”. Concreto rolado — Também nesse trecho foi adotada uma outra solução construtiva, a tecnologia do CCR - Concreto Compactado Com Rolo, na execução do corpo da barragem, em substituição ao método de terra compactada (BT) previsto anteriormente. A utilização dessa técnica permitiu o acúmulo antecipado de cerca de cem milhões de metros cúbicos de água no açude, já no ano de 2000, provenientes dos quatro primeiros meses de chuva daquele ano, proporcionando um aumento de 4 m3/s de água no sistema de abastecimento na cidade de Fortaleza. Getúlio Peixoto lembra que o CCR é uma mistura de areia e brita e baixos teores de cimento. Como é lançado por camadas, minimiza a temperatura máxima originada pelo calor de hidratação. Além disso, é uma técnica que pressupõe a utilização de equipamentos normais de terraplenagem e o transporte é facilitado, podendo ser feito por caminhões basculantes.”0 CCR proporcionou um sensível aumento da produtividade da obra, reduziu custos e aumentou a confiabilidade da construção”.

Nos trabalhos executados acima da cota 65 m - que incluem grande parte da Barragem Principal — não houve limitação em relação ao período do ano (mesmo se o rio atingisse a vazão de 4.228 metros cúbicos por segundo). Um trecho de 1.957 m foi executado com cascalho argiloso (terra) e material rochoso, proveniente de escavações obrigatórias e de pedreiras. Outros 750 m, correspondentes ao Dique Fusível, foram executados com areia, cascalho argiloso e rochas, assim como os nove diques (barragens auxiliares), com extensão total de sete quilômetros.

Umidade — Nos aterros (barragem principal e diques), lembra o engenheiro do Dnocs, uma das preocupações em relação aos materiais foi o controle da umidade. Isso porque a aridez da região deixa o cascalho-argiloso com umidade muito baixa. As jazidas deste material apresentam-se também bastante heterogêneas com uma concentração de seixos rolados muito elevada. Para contornar este problema e garantir a compactação adequada na construção do maciço, foram utilizadas usinas de solo, adaptadas na obra, com a finalidade de homogeneização e correção da umidade do material.

”Todos os materiais foram preparados fazendo-se a seleção e correção de umidade, controlando topograficamente em função da geometria do projeto e executando as estruturas em camadas. Paralelamente, também foram sendo feitos ensaios para se checar indicadores de umidade, densidade, granulometria, plasticidade e permeabilidade”.

Outra preocupação constante diz respeito à concretagem, das grandes estruturas principalmente da Barragem Principal, Tomada d'água e Vertedouro (ver Ficha Técnica da obra). Os grandes volumes motivaram, inclusive, a construção de uma fábrica de gelo em escamas (produção média de 5 toneladas por hora), para assegurar a qualidade do concreto, evitando assim os danos que as altas temperaturas podem provocar nas estruturas. “Uma de nossas principais preocupações foi condicionar as reações exotérmicas durante a execução dos concretos convencionais de forma que não surgissem trincas. Foi definido um traço para cada característica de concreto, alguns com adição de gelo, de forma a atingir condições de aplicação aceitáveis”, explica Getúlio Peixoto. Em uma obra distante 230 quilômetros de Fortaleza e praticamente isolada no Vale do Jaguaribe, no qual chegaram a trabalhar no pico dos trabalhos cerca de 1.300 pessoas, distribuídas em dois e três turnos 24 horas por dia, foi preciso montar uma infra-estrutura completa, com três núcleos distintos^ residencial, administrativo e industrial. Além dos alojamentos e instalações, no canteiro do Castanhão pode-se destacar um heliponto e um campo de pouso, além de um posto de combustível, uma estação de tratamento de água e três centrais (usinas), de ferragens, concreto e solo.

Complexo Castanhão — É essa estrutura, diz Getúlio Peixoto, que deu suporte às obras e que será decisiva não só para a conclusão da barragem, como também para a execução das obras complementares previstas. Algumas já estão em andamento, como a infra- estrutura para irrigação de hectares, as estações ecológicas e reservatórios de piscicultura, os canais de transposição de águas para Fortaleza e os polos turísticos. Para os próximos anos, também está prevista a ampliação da Nova Jaguaribara — cidade criada para receber os moradores de Jaguaribara que foram desapropriados por conta das obras. Além disso, terão que ser executados 27 Km da rodovia federal (BR-116), pois um trecho de 22 km ficará submerso pelas águas do reservatório. Já estão prontas também parte das estruturas que receberão as duas turbinas da hidrelétrica (22,5 MW). “A barragem, realmente, é apenas um item do complexo Castanhão. Sabemos que o projeto como um todo é um sonho, que irá se realizar progressivamente. Hoje, com o que foi executado, já são nítidos os benefícios na produção de carne, peixe e gêneros alimentícios nas áreas próximas do reservatório e ao longo de 150 Km de rio a jusante (abaixo) da barragem. Mas o melhor, com certeza, ainda está por vir”.

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