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Revista M&T - Ed.194 - Setembro 2015
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Rental

Questão de sobrevivência

Com queda de 30% nos negócios, setor luta para driblar excesso de oferta, deterioração nos preços e custos crescentes com reposição, transporte e manutenção
Por Augusto Diniz

O setor de locação de equipamentos encontra-se em uma encruzilhada. Com a demora na retomada das obras necessárias à melhoria da infraestrutura do país, as expectativas do segmento para este ano são de que a situação definitivamente não será muito diferente do que ocorreu no ano passado (talvez até pior), com esperanças não muito firmes de que o cenário comece a melhorar em 2016.

Para recapitular, ao final das obras da Copa do Mundo iniciou-se um período de desaquecimento no setor, que tem 90% das operações concentradas em obras civis e industriais. Em dezembro, as coisas pioraram quando o governo anunciou mudanças no Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com os recursos disponíveis tornando-se ainda mais escassos, além de juros mais altos e diminuição do percentual do bem a ser financiado.

De fato, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Máquinas, Equipamentos e Ferramentas (Analoc), Reynaldo Fraiha, até meados de maio do ano passado o mercado de locação de equipamentos estava bastante aquecido, devido p


O setor de locação de equipamentos encontra-se em uma encruzilhada. Com a demora na retomada das obras necessárias à melhoria da infraestrutura do país, as expectativas do segmento para este ano são de que a situação definitivamente não será muito diferente do que ocorreu no ano passado (talvez até pior), com esperanças não muito firmes de que o cenário comece a melhorar em 2016.

Para recapitular, ao final das obras da Copa do Mundo iniciou-se um período de desaquecimento no setor, que tem 90% das operações concentradas em obras civis e industriais. Em dezembro, as coisas pioraram quando o governo anunciou mudanças no Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com os recursos disponíveis tornando-se ainda mais escassos, além de juros mais altos e diminuição do percentual do bem a ser financiado.

De fato, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Máquinas, Equipamentos e Ferramentas (Analoc), Reynaldo Fraiha, até meados de maio do ano passado o mercado de locação de equipamentos estava bastante aquecido, devido principalmente às obras relacionadas ao megaevento esportivo. “Com a conclusão dos estádios e a paralisação de grande parte das obras de mobilidade urbana, começou a desaceleração do setor”, explica. “Sem as obras da Copa, os investimentos foram diminuindo, o que levou a uma forte desaceleração agora em 2015, com uma queda dos negócios que, sendo bastante otimista, já chega a 30%.”

As empresas de locação de equipamentos confirmam essa avaliação. “O segmento em geral foi muito impactado pela não realização das obras previstas, principalmente em infraestrutura”, diz Eurimilson João Daniel, presidente da Escad Rental, que oferece locação em toda Linha Amarela, contemplando as áreas de demolição, transporte e equipamentos de apoio operacional. “Além disso, o Brasil não consegue investir mais que 2% do PIB em infraestrutura, quando necessitaríamos de, no mínimo, 5%.”

O executivo cita ainda o “efeito Petrobras, com a operação Lava Jato”, que piorou muito o cenário, com forte impacto no setor de locação em todos os segmentos, em várias regiões do Brasil. “O restabelecimento das obras é mais que uma necessidade, representa a sobrevivência de muitas empresas”, sublinha.

VETORES

Daniel, que também é vice-presidente da Sobratema, vê ainda outros problemas que atingem duramente o setor. “Depois de quatro anos com crédito subsidiado, sofremos o excesso de oferta com queda significativa na rentabilidade, sendo que o ano de 2014 foi um dos piores nessa avaliação”, reclama, acrescentando que os custos continuam aumentando diante de um setor que não consegue manter o nível de atividade. “Nesse sentido, os principais impactos ocorrem na mão de obra e no capital de giro. Além disso, o aumento salarial não suportado nesse momento pode representar mais desemprego e elevação de juros, gerando mais dificuldades.”

De acordo com Lucy Lahóz, coordenadora de marketing do Grupo Lafaete, que atua no segmento de vendas e locação de módulos habitacionais e de equipamentos como máquinas da Linha Amarela, caminhões, torres de iluminação, grupos geradores e tendas, o advento da Copa do Mundo no Brasil realmente movimentou contratos de curto e de médio prazo, que garantiram um resultado positivo para a empresa. Mas as coisas mudaram desde então. “No ultimo trimestre do ano, já conseguíamos prever uma significativa desaceleração nos negócios”, diz.

Atualmente, como enfatiza Lahóz, devido à desaceleração da economia do país já se percebem dificuldades no setor de rental como a deterioração nos preços de locação, o elevado custo dos serviços de transporte e relacionados (como seguros, pedágios, combustíveis e outros) e o aumento do valor pago por peças de reposição e manutenção. “Além disso, temos de enfrentar o crescimento do volume de propostas especulativas, o aumento na taxa de inadimplência, o elevado custo de mão de obra e a falta de segurança jurídica”, acrescenta. “Por isso, estamos buscando novos mercados, justamente para recuperar algumas oportunidades que estão congeladas.” Por ser uma decisão estratégica da empresa, a executiva não revela que novos mercados são esses.

IMPACTOS

O atraso ou até falta de pagamento dos locatários é outro problema apontado por Marco Grangé, diretor da Rentamax, que oferece locação de minicarregadeiras e miniescavadeiras, além de rolos compactadores e vibroacabadoras. “No momento, nossa maior dificuldade está na inadimplência do setor de infraestrutura, notoriamente das empresas contratadas pelo Rio de Janeiro”, conta. “Mas, de maneira geral, desde 2014 todos os setores da economia estão retraídos, com destaque para a construção civil e a cadeia do petróleo. O alento vem das obras relacionadas às Olimpíadas de 2016.”

Apesar de também ter sede no Rio, a Mills – que possui três unidades de negócios (Infraestrutura, Edificações e Rental) – pode ser considerada uma exceção nesse cenário. “Em 2014, a unidade de rental registrou receita líquida de 370,8 milhões de reais, marcando um novo recorde anual, 3,8% superior à de 2013”, informa a diretora de relações com investidores, Alessandra Gadelha. “Ainda no ano passado, investimos 199,1 milhões de reais, dos quais 172,1 milhões de reais foram destinados à aquisição de equipamentos para locação, devido à perspectiva de crescimento nos mercados de rental e de infraestrutura. Além disso, inauguramos quatro unidades, totalizando 30 filiais.”

No entanto, Gadelha também reconhece as dificuldades do setor. Por conta da persistente instabilidade da economia, alguns clientes optaram por reduzir os investimentos, suspenderam projetos ou diminuíram o ritmo de obras, o que impactou o mercado como um todo. “Porém, acreditamos que o rental tem grandes oportunidades de expansão para outras áreas da economia, além da construção, como manutenção em shopping centers, edifícios comerciais e complexos corporativos, por exemplo”, diz ela. “Para manter o crescimento, nossa estratégia é focar os esforços em melhoria de eficiência operacional, visando a ampliar nossa rentabilidade e, assim, nos tornarmos mais competitivos.”

SELETIVIDADE

Como suas congêneres do setor, a Mills Rental também tem de enfrentar um obstáculo colocado no caminho das empresas pelo próprio governo. Isso porque, de acordo com Fraiha, da Analoc, as alterações nas regras do PSI de fato tiveram um impacto profundo no setor de locações. “Os investimentos se retraíram absurdamente, por causa das mudanças no programa do BNDES. Antes, conseguíamos juros baixos para fazer os investimentos necessários para compra de equipamentos”, explica. “Hoje, passamos praticamente a ter taxas de mercado. Isso tem impacto direto sobre a capacidade de investimento das empresas e sobre o custo de locação, pois há um dispêndio de aquisição maior que, inevitavelmente, tem de ser repassado.”

Daniel, da Escad, por sua vez, alega que o setor nunca foi chamado para discutir o papel do BNDES para os negócios dos locadores. “Esse é um grande desafio da organização do segmento de rental”, diz ele. “As regras antigas tinham o objetivo de favorecer a todos, mas a indústria é que foi a grande beneficiada. Os locadores, ao contrário, tiveram queda nos preços, aumento da concorrência e diminuição no nível de atendimento, provocado por um juro que apoiamos, mas com um prazo de cinco anos para a maioria, que se mostrou prejudicial em uma economia que não sustenta a demanda. Estamos em 2015 e muitos investimentos feitos em 2010 ainda estão sendo pagos, em um cenário totalmente adverso.”

Por isso, Daniel defende uma condição diferenciada de crédito para os locadores e a indústria. “Hoje, conseguimos sentir que um prazo menor de financiamento (36 meses e não 60) teria sustentado nossa rentabilidade e regulamentado melhor a entrada de novas empresas no mercado”, explica, sintetizando a avaliação da maioria das companhias nacionais de rental sobre as alterações do PSI. “Ainda é cedo para avaliar o impacto da mudança, mas o governo errou em aumentar os juros e manter o prazo”, avalia. “O melhor seria manter os juros e reduzir o prazo. As novas regras já trouxeram uma mudança na formação de novos negócios: ficou mais seletiva.”

DEPURAÇÃO

Diante desse quadro, as expectativas para o ano são cautelosas. “É um ano de cautela e consolidação”, avalia Grangé, da Rentamax. “Acreditamos que o mercado de locação de equipamentos sofrerá um processo de depuração, no qual as empresas alavancadas pela oferta de crédito barato dos últimos anos vão precisar de grande esforço para se manter.”

Inclusive, as dificuldades esperadas para o próximo ano estão levando algumas delas a planejar até mesmo redução de investimentos. “O ano de 2015 trouxe grandes incertezas na economia e, principalmente, nos setores de infraestrutura e de óleo e gás”, diz Gadelha, da Mills. “Nesse contexto, nós reduziremos significativamente nossos níveis de investimentos para valor máximo de 40 milhões de reais, sendo a principal parcela destinada para melhorias no processo de manutenção e das instalações de nossas unidades.”

Para superar esse desafio, Fraiha, da Analoc, acrescenta que o setor recebeu com alívio a reabertura das rodadas de concessões do governo federal (incluindo rodovias, aeroportos, terminais portuários e trecho da ferrovia Norte-Sul), a única forma de investimentos capaz de fazer a economia se recuperar. “Com a necessidade de o governo ter de sanar as suas contas e gerar superávit fiscal, vai haver um volume de investimento muito pequeno na área pública federal”, explica. “Então, nós estávamos ansiosos pela abertura das concessões e esperançosos que elas realmente movimentem o rental como um todo.”

Estima-se que atualmente o segmento de rental no Brasil tenha entre 4.500 e 5.000 empresas, que atendem a 30% da necessidade de frotas das áreas de construção pesada e infraestrutura. Dentre as vantagens da locação em substituição à compra dos ativos estão fatores como disponibilidade de equipamentos modernos e novos – frota renovada de dois em dois anos –, custo zero de manutenção, (pois é feita pela locadora) e dispensa de local para estocagem. “Além disso, há outros benefícios da locação, como, por exemplo, a exclusão da depreciação do bem, preservação do capital de giro e baixo custo de investimentos”, conclui Daniel.

Locadora busca negócios fora do país

Como muitas outras companhias, a SH também busca negócios fora do país para contrabalancear a queda na demanda interna. Locadora de formas para concreto e escoramentos metálicos, a empresa abriu sua primeira filial em Bogotá, na Colômbia, a primeira fora do Brasil e na qual investiu 5 milhões de dólares. Segundo a empresa, a escolha foi estratégica, já que o país apresenta um cenário de boas oportunidades para o segmento e, assim como outras regiões da América Latina, apresenta déficits habitacionais e de infraestrutura. “Nossa intenção é iniciar o embarque do material para que, ainda no primeiro semestre de 2016, possamos fechar contratos de locação”, diz Matheus Perié, diretor da unidade. “Estamos otimistas com o mercado, pois há semelhanças com os desafios que enfrentamos no Brasil.”

 

 

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