
Foto:GOLDHOFER
O setor de locação de máquinas e equipamentos no Brasil movimenta dezenas de bilhões de reais por ano e gera centenas de milhares de empregos. Em amadurecimento acelerado, o setor nos últimos anos deixou de ser apenas uma alternativa operacional para se tornar um componente estratégico de produtividade, competitividade e crescimento na economia nacional.
Para criar um panorama do rental no Brasil, a Analoc (Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas) contratou a KPMG Research & Analysis para desenvolver um estudo inédito sobre os principais números e motores que movem a atividade no país, uma das q


Foto:GOLDHOFER
O setor de locação de máquinas e equipamentos no Brasil movimenta dezenas de bilhões de reais por ano e gera centenas de milhares de empregos. Em amadurecimento acelerado, o setor nos últimos anos deixou de ser apenas uma alternativa operacional para se tornar um componente estratégico de produtividade, competitividade e crescimento na economia nacional.
Para criar um panorama do rental no Brasil, a Analoc (Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas) contratou a KPMG Research & Analysis para desenvolver um estudo inédito sobre os principais números e motores que movem a atividade no país, uma das que mais crescem no mundo.
Com apoio da Sobratema, dentre outras empresas e entidades setoriais, o levantamento se propõe a mapear o mercado brasileiro de locação, um passo considerado necessário para reforçar a credibilidade junto ao setor financeiro, seguradoras e fabricantes. “O estudo confirma que o rental não é mais uma alternativa operacional apenas, tornando-se um componente expressivo de produtividade e competitividade na economia brasileira”, comentou o presidente da Analoc, Paulo Esteves, durante o evento de lançamento do relatório “Rental Marketing Report”, realizado no final de março em São Paulo. “Ao optar pela locação, as empresas focam no core business e liberam capital para utilização em áreas estratégicas”, reforçou.
De acordo com ele, a evolução do conceito de propriedade para uso permite reduzir a complexidade nas empresas, transferindo a responsabilidade de manutenção e gestão das frotas para as locadoras. “Estamos diante de um setor que cresce porque resolve problemas reais das empresas do Brasil”, frisou o dirigente.
Público locador acompanha o lançamento do relatório: bússola do rental. Foto:MARCELO JANUÁRIO
Para Esteves, o inédito estudo “serve como uma bússola para o setor, direcionando investimentos, atraindo investidores internos e externos, orientando o mercado financeiro sobre a resiliência da área e oferecendo linhas mais acessíveis de crédito, o que também se aplica a seguradoras e fornecedores”.
Segundo o diretor de estratégia da KPMG da França, Martin Seban, que liderou a pesquisa, o modelo de locação de equipamentos é cada vez mais visto como uma ferramenta de flexibilidade financeira, em vez de mera solução temporária. “A dinâmica por trás do crescimento está mudando”, sublinhou o analista, destacando que um mercado fortemente impulsionado pelo ajuste de preços passou a ser impelido pelo volume de locações. “Além disso, os clientes já não procuram apenas máquinas, mas exigem maior eficiência operacional, melhor manutenção e integração tecnológica”, comentou Seban, em participação por vídeo.
DINÂMICA
Dimensionando o setor, o trabalho revela um mercado composto por 50 mil empresas. Em geral, o setor brasileiro de locação permanece bastante fragmentado, com forte presença de pequenas e médias empresas atendendo demandas locais e regionais. De acordo com o estudo, a presença de locadores internacionais ainda é rara, devido especialmente ao cenário de “complexidade tributária, extensão territorial e alto custo dos equipamentos”.
Em 2025, o tamanho estimado do setor (em valor) chegou a R$ 49 bilhões (0,40% do PIB brasileiro no ano), valor que inclui R$ 9 bilhões provenientes da locação de caminhões. A maior fonte de negócios é a Linha Amarela, que reúne equipamentos como escavadeiras, carregadeiras, retroescavadeiras, motoniveladoras e tratores de esteiras, com R$ 16,3 bilhões de participação nos resultados do ano passado.
Refletindo a aceleração de negócios país afora, a sondagem sobre a dinâmica do mercado indica um crescimento anual composto (CAGR) de 11% entre 2022 e 2027 (de R$ 33,3 para R$ 56,7 bilhões). Apesar de promissora, essa dinâmica também embute desafios. Desde a pandemia, a dinâmica de crescimento tem sido pautada por um aumento expressivo da frota com queda de preços e sobreoferta no setor, que atualmente emprega 200 mil pessoas em território nacional, segundo dados do estudo.

Com R$ 16,3 bilhões de participação nos resultados em 2025,Linha Amarela é a maior fonte de negócios do setor no país. Foto:FONTE: RENTAL MARKETING REPORT 2026
Quanto à opção tributária, 94% das empresas estão registradas no MEI (Microempreendedor Individual, com faturamento até R$ 81 mil/ano), categoria simplificada dentro do Simples Nacional (até R$ 4,8 milhões/ano), enquanto 5% estão no lucro presumido (receita bruta até R$ 78 milhões) e apenas 1% no lucro real (acima de R$ 78 milhões). Sobre esse cenário, o especialista contábil Paulo Henrique Souza advertiu no evento que “a reforma [tributária] vai nivelar a locadora que paga imposto de maneira organizada e quem trabalha de forma amadora, que vai ter de arrumar a casa”.
Somente as empresas sob lucro real respondem por 48% do faturamento total do setor, que pagou R$ 9 bilhões em impostos no ano passado. “Se 1% das 50 mil empresas são de lucro real, isto é, médias e grandes, estamos falando de 500 empresas do Brasil”, salientou Esteves. “Quando se imagina que 60% do faturamento vem da região Sudeste, essa questão de preço faz a gente pensar.”
Considerando as principais famílias de máquinas atuando no Brasil, a frota estimada para locação já abrange 75 mil equipamentos de terraplanagem (Linha Amarela), 70 mil empilhadeiras, 55 mil caminhões, 50 mil plataformas elevatórias, 50 mil geradores, 15 mil torres de iluminação, 10 mil compressores, 3,5 mil elevadores de cremalheira, 1,2 mil guindastes e 1 mil manipuladores telescópicos, além de 400 mil t de andaimes e escoramentos, dentre outras.
No setor agrícola, a penetração da locação ainda é considerada baixa, mas apresenta potencial. “O pessoal que vem da cultura patrimonialista está começando a olhar para esse lado”, observou Nicolas Santos, gestor comercial da John Deere. “Já a nova geração não quer tanto a posse, mas quer ter direito ao uso.”
Os números revelam ainda que a taxa média de utilização da frota brasileira de locação chega a 50%, indicando uma evolução consistente do setor. “Quem entender essa transformação não irá apenas acompanhar o crescimento do mercado, mas vai liderá-lo”, resumiu Esteves.
MATURIDADE
Observando-se os resultados da divisão regional na locação, percebe-se uma clara discrepância de maturidade setorial. No ano passado, a região Sudeste absorveu 60% da atividade de locação no Brasil, seguida por Nordeste (15%), Sul (13%), Centro-Oeste (7%) e Norte (5%). “O Sudeste continua a liderar no país, mas o Centro-Oeste e o Norte representam o futuro do setor”, comentou Seban, da KPMG. “Embora a penetração local do rental atualmente seja menor do que o desenvolvimento da atividade de mineração, há um potencial significativo de expansão do mercado no longo prazo.”
Setor brasileiro de locação permanece bastante fragmentado, com forte presençade pequenas e médias empresas atendendo demandas locais e regionais. Foto:FONTE: RENTAL MARKETING REPORT 2026
Outro item destacado no relatório é a penetração média do rental no Brasil, atualmente em 40%, cujo nível varia conforme o equipamento. Enquanto a Linha Amarela tem 25% de penetração, as plataformas aéreas atingem 90% no indicador. “O mercado brasileiro ainda é novo, está em desenvolvimento”, comentou Paulo Carvalho, diretor da Locabens e vice-presidente da Analoc, destacando que os EUA têm uma penetração de aproximadamente 50%. “Só que, para o mercado americano é muita coisa. Estamos falando de um PIB de 30 trilhões de dólares, enquanto o do Brasil é 2 trilhões de dólares. Imagine esse volume de equipamento”, argumentou o especialista, acrescentando que o Reino Unido é o mercado mais maduro do mundo na locação. “Lá, chega a algo entre 64% e 68% de penetração”, posicionou.
O estudo, aliás, também analisa o potencial de crescimento do setor em perspectiva global. Em 2025, o mercado brasileiro de rental registrou avanço de 10%, taxa superior aos 3% obtidos nos EUA e ao 1% da Europa. “O perfil das empresas de locação no Brasil é o que chamaria de multiespecialistas”, disse Stéphane Hénon, CEO da Loxam e presidente da ERA (European Rental Association), destacando as diferenças estruturais. “Ainda não existem empresas que chamamos de generalistas, como vemos nos EUA e na Europa.”
Para Eurimilson Daniel, diretor da Escad Rental e vice-presidente da Sobratema, o mercado brasileiro de fato “ainda não dispõe desse tipo de big empresa”. “O que temos são empresas com vários segmentos, que oferecem produtos ao mercado, mas ainda não constituem uma cadeia completa”, ponderou.
No ano passado, o faturamento do setor em relação ao PIB atingiu 0,38% no Brasil, superando os resultados de 0,26% na América do Norte e de 0,15% na Europa. Contudo, o faturamento per capita no país é de US$ 44, consideravelmente abaixo do registrado nos EUA (US$ 235) e na Europa (US$ 80). “Nos EUA e na Europa, a locação é cobrada por períodos de quatro semanas e não por 30 dias”, ressaltou Esteves. “E quando você cobra quatro semanas, no período de um ano você tem uma locação a mais.”
ABSORÇÃO
O principal setor que mobiliza as frotas das locadoras inclui a construção (residencial, não-residencial e infraestrutura), que representa 60% do mercado, embora o segmento de não-construção (indústria, mineração, agricultura, logística e eventos) venha ganhando espaço crescente em áreas como mineração, indústria e energia solar.
A pesquisa aponta ainda uma tendência de consolidação por meio de fusões e aquisições, motivada pela profissionalização do setor. “Juntos, podemos fazer o mercado de rental ainda mais forte no Brasil”, conclamou Bernardo Veroneze, diretor de rental da Armac. “Precisamos apoiar a construção para que todo mundo tenha uma boa taxa de retorno ou ROI.”
Para os próximos anos, todavia, projeta-se uma estabilização no ritmo de expansão, com crescimento de 7% previsto para 2026.
Saiba mais:
Analoc: https://analoc.org.br
A metodologia adotada pela KPMG na elaboração do “Rental Marketing Report 2026” reúne dados históricos e estimativas futuras, com levantamentos a partir de dados públicos e fontes setoriais qualificadas. Segundo a consultoria, as previsões são realizadas usando correlações históricas com a dinâmica inerente do mercado, incluindo equipamentos novos e renovação da frota.
A pesquisa seguiu duas etapas distintas. Primeiro, determinou o tamanho do mercado utilizando dados do IBGE baseados em quatro códigos, a saber, construção, agrícola, andaimes e máquinas comerciais e industriais. Posteriormente, projetou o crescimento com base em entrevistas com mais de 30 especialistas e análises de fatores impulsionadores.
A pesquisa deixa claro como a demanda por locação relaciona-se diretamente com o ambiente macroeconômico brasileiro. Atualmente, os principais impulsionadores incluem urbanização, projetos de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o programa habitacional Minha Casa Minha Vida, além de fatores conjunturais como a escassez de mão de obra qualificada, que estimula a mecanização.
No entanto, o cenário segue em evolução rápida. O diretor de estratégia da KPMG da França, Martin Seban, disse ter observado uma mudança “notável” na origem da demanda. “O setor não relacionado à construção civil tornou-se a diversificação mais significativa que está ocorrendo”, acentuou. “Mineração, agricultura e energia estão se tornando mais proeminentes no mix de locações, proporcionando uma vantagem necessária contra a natureza cíclica da construção.”
Segundo o presidente da ERA (European Rental Association), Stéphane Hénon, o mercado brasileiro tem alto potencial de modernização se comparado ao Velho Mundo, mas apresenta maior volatilidade e inflação que o similar europeu. “A fragmentação atual deve evoluir para uma tendência de consolidação à medida que o mercado amadureça”, comentou.
Além disso, as empresas brasileiras são mais focadas em categorias específicas (como Linha Amarela ou acesso), diferentemente dos EUA e da Europa, disse ele, onde os grandes locadores são mais generalistas. Já a escassez de pessoal qualificado e o excesso de oferta são desafios críticos para os locadores no Brasil, ressaltou o especialista, em comentário feito por vídeo. “O excesso de oferta de determinadas categorias de equipamentos, juntamente com a estratégia dos fabricantes chineses para penetrar no mercado brasileiro, exige um inventário cuidadoso e uma análise minuciosa de mercado”, assinalou.
Setor brasileiro de rental apresenta maior volatilidade e inflação do que o similar europeu

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