Radar

P U B L I C I D A D E

ABRIR
FECHAR

P U B L I C I D A D E

ABRIR
FECHAR
Revista M&T - Ed.305 - Julho de 2026
Voltar
A ERA DAS MÁQUINAS

Ascensão e queda de uma empresa 100% nacional

Criada em 1959, a Companhia Brasileira de Tratores (CBT) viria a se tornar um dos maiores fabricantes da América Latina, até sua derrocada na década de 1990
Por Norwil Veloso
Equipado com um motor Detroit Diesel de 4 cilindros e 120 cv, o modelo CBT 2400 ficou na memória pelo ronco inconfundível. IMAGENS: REPRODUÇÃO

Fundada em 1855 nos Estados Unidos para produção de implementos agrícolas, a Oliver viria a se fundir com a Hart e mais duas outras empresas em 1929, originando a Oliver Corporation.

Em 1960, a empresa tornou-se subsidiária da White Motors, que adquiriu outras companhias do ramo e foi gradativamente reduzindo a participação da marca, que deixou de ser utilizada em 1972.

Antes disso, todavia, a Oliver se candidatou junto ao GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) para instalar uma linha de fabricação de tratores agrícolas no Brasil.

Para tanto, precisava garantir um índice inicial de nacionalização de 70%, chegando a 95% em três anos. Seu projeto, contudo, não foi selecionado pelo órgão.

Entre as escolhidas ini


Equipado com um motor Detroit Diesel de 4 cilindros e 120 cv, o modelo CBT 2400 ficou na memória pelo ronco inconfundível. IMAGENS: REPRODUÇÃO

Fundada em 1855 nos Estados Unidos para produção de implementos agrícolas, a Oliver viria a se fundir com a Hart e mais duas outras empresas em 1929, originando a Oliver Corporation.

Em 1960, a empresa tornou-se subsidiária da White Motors, que adquiriu outras companhias do ramo e foi gradativamente reduzindo a participação da marca, que deixou de ser utilizada em 1972.

Antes disso, todavia, a Oliver se candidatou junto ao GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) para instalar uma linha de fabricação de tratores agrícolas no Brasil.

Para tanto, precisava garantir um índice inicial de nacionalização de 70%, chegando a 95% em três anos. Seu projeto, contudo, não foi selecionado pelo órgão.

Entre as escolhidas inicialmente pelo GEIA estava a Case – associada ao grupo industrial Pereira Lopes –, que desistiu do empreendimento.

A Oliver foi então convocada para substitui-la na sociedade, que foi formada com um capital de 20 milhões de cruzeiros, sendo 700 mil dólares como investimento da própria Oliver.

Em 1959 foi criada a Companhia Brasileira de Tratores (CBT), sediada em Ibaté (SP), com capital 100% nacional e participação da Pereira Lopes, que inicialmente montava os tratores Oliver 950.

Em seu auge, a nova marca viria a se tornar um dos maiores fabricantes da América Latina, exportando seus produtos para os Estados Unidos, Japão, México, Austrália, Argentina, América Central, Caribe, Argélia, Marrocos, Nigéria, Senegal e África do Sul.

PRODUÇÃO

A produção dos tratores – cuja linha era liderada pelo modelo 950, com 3,7 ton e motor Mercedes de 72 cv – foi iniciada em 1961, em São Carlos (SP), com índice de nacionalização de 78,8%.

Com capacidade de tração de 5 t, esse modelo histórico foi o primeiro trator pesado fabricado no Brasil.

Algum tempo depois, tornou-se impossível para a Oliver manter os compromissos assumidos. Então, a empresa renunciou aos direitos e permitiu que a CBT assumisse a produção e o desenvolvimento da linha sem restrições.

Três anos depois, a potência do trator (que passou a ser chamado de 1020) foi aumentada para 80 cv, passando a utilizar motor Perkins.

Com design exclusivo da grade, essa variação do modelo Corporate apresentam o emblema “White Oliver” na carenagem

Em seguida, foram lançados os modelos 1090 (de 5,5 t, com motor Perkins de 90 cv) e 1105 (semelhante, mas com motor Mercedes de 105 cv), amplamente utilizados no segmento de construção pesada na época.

Até 1971 a CBT produziu cerca de 14 mil tratores, pouco mais de 10% do total vendido no país, respondendo por cerca de um terço do mercado nacional de unidades pesadas, o que a tornou um dos maiores fabricantes de tratores da América Latina.

Em 1971, a linha compreendia sete modelos (nas faixas de 4,3 a 6,8 t e de 83 a 118 cv), sendo três com tração 4x4, enquanto a empresa preparava o lançamento de seu maior modelo, o 9270 4x4 (de 8,7 t, com motor Perkins de 145 cv).

Em 1975 foi lançado o trator 1000 (2,7 t e 56 cv), que vendeu cerca de 4.000 unidades em apenas um ano e meio, além do modelo 1065 (59 cv) e do scraper SS-650.

Durante a primeira metade da década de 1970, a CBT manteve um share de 19% no mercado nacional, com pico de 23% em 1974.

Com a liberação das importações, em 1977, o cenário se alterou.

A Ford retornou ao mercado e a produção da CBT caiu quase 70%, com a venda de 8.060 unidades a menos que em 1976, praticamente o mesmo volume vendido pela Ford naquele ano.

A empresa, contudo, conseguiu reagir e, em 1980, registrou vendas que atingiram 7.130 máquinas, quase o dobro de 1977.

Mas os reflexos da crise de 1980 sobre a agricultura acabaram por impedir a recuperação completa da CBT.

A recessão, que reduziu a produção do país em 33% entre 1980 e 1981, fez com que a produção da fábrica caísse drasticamente, com venda de apenas 2.741 unidades em 1981.

Por ser extremamente verticalizada e fabricar grande parte dos componentes de seus tratores (inclusive motores), a empresa dispunha de alta capacidade de desenvolvimento e de fundição própria de grande capacidade, o que permitiu manter uma política de ampliação e diversificação de produtos ao longo da década de 1980.

Em 1981, a marca lançou os modelos 3000 e 3500 Álcool, embora sem grande sucesso, além das séries 2000, 4000 e 8000 diesel, inicialmente com motores Perkins e Mercedes e, posteriormente, com propulsor MWM.

Em 1986, foi a vez do 8060 4x4 (de 110 hp). Np meio tempo, a empresa começou a desenvolver em 1982 o projeto de aeronave (RPV), jamais concluído devido ao fim do apoio governamental.

UTILITÁRIOS

A CBT, contudo, pretendia ir além, produzindo seus próprios motores e lançando uma linha de utilitários – posteriormente complementada por caminhões e tratores. Em 1985, comunicou que, em um prazo de dois anos e meio, teria condições de fabricar seus próprios motores, desenvolvendo três modelos: DM301 (3 cilindros e 55 cv), DM401 (4 cilindros, 73 cv) e DM602 (6 cilindros, 106 cv), fabricando inclusive as bombas injetoras e os turbocompressores.

Apresentado no Salão do Automóvel de 1988 como protótipo e iniciando a produção em 1990, o utilitário Javali tinha peso de 1.650 kg, dimensões de 3.495 x 1.807 x 1.800 mm, altura livre de 25 cm, capacidade de 750 kg e motor turbo de 83 hp, tornando-se o segundo carro totalmente criado e desenvolvido no Brasil.

Com peso de 1.650 kg, o utilitário Javali foi apresentado ainda como protótipo no Salão do Automóvel de 1988

O modelo era fabricado pela MPL Motores S. A., subsidiária criada pela CBT especificamente para a produção de motores e utilitários. Considerando suas qualidades e deficiências, além do custo elevado, até por ser um projeto da fábrica, a aceitação do mercado foi discreta.

A política de expansão, contudo, mostrou-se afastada da realidade da época, fazendo com que as vendas permanecessem na faixa de 3.000 unidades por ano, enquanto seus concorrentes vendiam cinco vezes mais.

No entanto, as medidas adotadas pelo governo Collor (1990-1992), abrindo o mercado às empresas estrangeiras e extinguindo todos os mecanismos de proteção à indústria automobilística, além de uma série de deficiências não corrigidas na própria empresa, dificultaram o aumento das vendas dos jipes Javali, cuja fabricação foi finalmente suspensa no final de 1993.

Por sua vez, a produção de tratores continuava a cair (em 1994, foram apenas 214 unidades), cessando totalmente em 1995, após uma produção total de 111.000 tratores e 1.000 jipes em 35 anos de existência.

Em outubro de 1997, a CBT teve a falência decretada, sendo que os trabalhadores assumiram a massa falida.

Após uma tentativa frustrada de acordo com a Lada para fabricação dos jipes no Brasil, os imóveis de São Carlos foram vendidos em 2000 e a empresa deixou definitivamente de existir.

Atualmente, no local funciona o Museu TAM, junto ao Aeroporto de São Carlos, construído pela própria CBT.


Leia na próxima edição:
O desenvolvimento da escavação contínua

P U B L I C I D A D E

ABRIR
FECHAR

P U B L I C I D A D E

P U B L I C I D A D E