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Revista M&T - Ed.301 - Fev / Mar - 2026
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ASFALTO

O ciclo do ouro negro da usina à pista

Por Santelmo Camilo

Em praticamente toda obra de restauração viária, o material está lá. Ele é fresado, carregado, transportado e, não raramente, armazenado à margem da rodovia como um resíduo inevitável do processo. Todavia, do ponto de vista técnico, aquele “bolo negro” retirado da pista está longe de ser um mero descarte. Ao contrário, trata-se de um insumo valioso, pois agrega materiais pétreos já selecionados e uma parcela de ligante asfáltico incorporado – ainda que envelhecido pelo tempo, pela oxidação e por ciclos repetidos de aquecimento e resfriamento.

De fato, o RAP (Reclaimed Asphalt Pavement) ganhou protagonismo nos esforços de sustentabilidade da pavimentação ao articular dois temas sensíveis ao setor: custo e disponibilidade de insumos. Em um cenário de pressão sobre o CAP (Cimento Asfáltico de Petróleo), fretes caros e necessidade de reduzir emissõ


Em praticamente toda obra de restauração viária, o material está lá. Ele é fresado, carregado, transportado e, não raramente, armazenado à margem da rodovia como um resíduo inevitável do processo. Todavia, do ponto de vista técnico, aquele “bolo negro” retirado da pista está longe de ser um mero descarte. Ao contrário, trata-se de um insumo valioso, pois agrega materiais pétreos já selecionados e uma parcela de ligante asfáltico incorporado – ainda que envelhecido pelo tempo, pela oxidação e por ciclos repetidos de aquecimento e resfriamento.

De fato, o RAP (Reclaimed Asphalt Pavement) ganhou protagonismo nos esforços de sustentabilidade da pavimentação ao articular dois temas sensíveis ao setor: custo e disponibilidade de insumos. Em um cenário de pressão sobre o CAP (Cimento Asfáltico de Petróleo), fretes caros e necessidade de reduzir emissões, reaproveitar parte do que já está na via parece um caminho natural. Não por acaso, estudos técnicos passaram a tratar o RAP como matéria-prima circular, capaz de reduzir a extração de agregados virgens e, ao menos em tese, manter o desempenho quando bem-processado.

Na prática, porém, o avanço é mais lento do que o debate sugere. O Brasil já domina tecnologias de fresagem, reciclagem a frio e usinas com diferentes arranjos para a incorporação de material reciclado. Assim, o que ainda limita a adoção da técnica em larga escala não é o equipamento em si, mas outros fatores indispensáveis para o processo, como rastreabilidade do material, rotina de laboratório, disciplina operacional, controle de umidade e escolha assertiva da configuração da usina para cada patamar de teor reciclado.

Ou seja, para o RAP retornar à pista com bom desempenho e durabilidade, é preciso tratar a reciclagem como processo industrial e não a relegar a improvisos na obra. Por isso, aspectos como variabilidade do material, granulometria e dosagem, risco de contaminação, configuração de planta e, sobretudo, recursos de laboratório no desenho da mistura são fundamentais.

VARIABILIDADE

Quase sempre, o primeiro obstáculo é o mesmo: o RAP não é um material padronizado. Como destacam os especialistas ouvidos nesta reportagem, o teor de ligante envelhecido, a granulometria e a umidade mudam conforme a origem, o que – se o processo não for controlado – afeta fatores como trabalhabilidade, demanda de CAP e rigidez, trazendo riscos de defeitos como segregação, trincamento e baixa durabilidade.

Na visão de Emerson Dewes, gerente de engenharia e inovação da Margui, esse caráter “multiorigem” exige uma mudança de cultura. “Uma rua apresenta um determinado tipo de matéria-prima, enquanto uma via paralela já pode ter outro”, delineia. “Às vezes, materiais diferentes passam pelo mesmo processamento, fazendo com que as construtoras precisem controlar o tipo de material para atingir uma dosagem correta e obter uma performance adequada da mistura.”

Teor de ligante, granulometria e umidade mudam conforme a origem do reciclado.AMMANN


De acordo com ele, há bons motivos para a atual ênfase no uso de material reciclado. Afinal, o RAP – embora ainda não seja tão disseminado – é um produto muito rico por trazer ligante asfáltico e agregados. No entanto, é um produto que chega saturado devido ao ligante envelhecido (oxidado), impactando o desempenho final da massa asfáltica. Por isso, precisa passar por um novo processo. Soma-se a isso o teor de CAP/ligante, que varia de obra para obra.

Assim, misturar materiais de diferentes origens sem controle pode trazer consequências inesperadas. “Também é preciso dar atenção aos limites de aquecimento”, orienta Dewes, destacando que, como já passou por envelhecimento, o RAP pode perder propriedades se aquecer demais. “Por isso, não é só colocar 10% de RAP e pronto”, ele observa. “Se não houver controle, você pode estar prejudicando mais do que ajudando.”

Agregados respondem pela resistência mecânica da massa, enquanto finos e CAP conferem coesão e elasticidade.LINTEC & LINNHOFF.


O gerente comercial da Ammann do Brasil, Ivan Reginatto, acrescenta a necessidade de se conhecer o material antes mesmo de dosar. “Quando se está fazendo uma mistura asfáltica, pode-se acrescentar aproximadamente 50% de areia, 25% de pedra e 5% de CAP”, detalha. “Acrescentar o RAP, porém, exige a retirada de algum material para obter os 100% da mistura final. Por isso, é necessário conhecer o fresado e a granulometria contida no RAP, permitindo diminuir esses itens e acrescentar materiais virgens como pedras, petróleo, asfalto etc.”

GRANULOMETRIA

Se a variabilidade é um ponto crítico, a granulometria é o caminho para domá-la. Como a mistura asfáltica é um arcabouço mineral revestido por ligante, mudar a fração de finos ou de graúdos altera fatores como vazios, estabilidade, trabalhabilidade e resistência à deformação. Ou seja, ao entrar no conjunto, o RAP passa a compor a receita e, por isso, precisa ser tratado como componente com características conhecidas e controladas.

De acordo com Carlos Santos, gerente-geral da Sany do Brasil, a granulometria é um dos pilares da performance da mistura. Os agregados, diz ele, formam o esqueleto estrutural da massa, responsável pela resistência mecânica, enquanto os finos e o CAP conferem coesão e elasticidade. “Ao ser incorporado à mistura, o RAP passa a integrar esse esqueleto e, por isso, o controle deve começar já na fresagem, seguindo pela classificação adequada, armazenamento correto e aplicação precisa”, descreve. “Se a granulometria do RAP não estiver bem-controlada, o resultado será uma mistura desbalanceada, inadequada para a função estrutural do pavimento.”

Segundo Santos, uma mistura com excesso de finos oriundos do RAP tende a apresentar deformações prematuras e perda de desempenho em aplicações de tráfego pesado, por exemplo. Assim, o controle granulométrico do material reciclado é tão importante quanto o dos agregados virgens. E a origem dessa consistência começa na fresagem.

O gerente da Sany observa que fresadoras apropriadas e operação ajustada ajudam a evitar extremos, sejam blocos grandes demais ou material pulverizado em excesso. “O uso de equipamentos adequados permite obter um material com granulometria controlada”, ele explica, salientando que o RAP precisa ser classificado e segregado após a extração.

Dewes, da Margui, reforça que o controle da granulometria – essencial para garantir homogeneidade, evitar segregação e garantir a trabalhabilidade – depende da estrutura de laboratório e automação de dosagem. Nesse sentido, o especialista chama a atenção para um gargalo recorrente. “O risco com o RAP cresce quando o cliente não possui laboratório para concreto betuminoso usinado a quente (CBUQ) convencional, uma vez que a homogeneização exige controle por lote e rotina de verificação”, comenta.

Diretor de tecnologia (CTO) da Lintec & Linnhoff, o especialista Jeffrey Ma oferece um detalhe técnico sobre outro procedimento crucial. “A distribuição granulométrica exerce um papel decisivo, pois o teor de ligante envelhecido varia significativamente entre as partículas finas de RAP e as frações mais grossas”, destaca. “Geralmente, o material fino contém maior proporção de betume envelhecido, enquanto as partículas mais grossas apresentam menor teor de ligante.”

FONTE: AMMANN .


Desse modo, ao se separar o RAP em diferentes faixas granulométricas, os fabricantes conseguem combinar os agregados reciclados com os materiais virgens de forma mais precisa. “Isso melhora o controle da granulometria final e permite um cálculo mais preciso da adição de ligante asfáltico novo, mantendo o desempenho, a durabilidade e a uniformidade da mistura”, complementa Ma.

CONTAMINAÇÃO

Se o controle granulométrico exige método, a prevenção de contaminação exige disciplina. Na prática brasileira, o RAP muitas vezes vira uma pilha exposta. E isso tem um custo direto, pois a umidade aumenta o consumo de combustível, reduz a capacidade produtiva e dificulta o controle da temperatura final da mistura.

Além disso, as contaminações por solo e base alteram curvas e podem comprometer o desempenho. “O problema começa na origem”, afirma Dewes, referindo-se ao fato de que, no Brasil, esse material muitas vezes fica à beira da rodovia, exposto a chuva, sujeira e contaminação. “O ideal é ter beneficiamento, destorroar, peneirar, separar por faixas granulométricas e armazenar adequadamente, de preferência em galpões”, posiciona.

Nesse aspecto, Jeffrey Ma adiciona dois cuidados que conectam o campo ao laboratório. O primeiro é a própria via. “A superfície do pavimento precisa estar limpa e a profundidade de corte deve ser rigorosamente controlada para remover apenas a camada asfáltica, evitando contaminar o RAP com base ou subleito”, afirma. “O segundo é a gestão do estoque: segregar por origem, proteger contra água, controlar umidade e poeira e monitorar a limpeza do material”, orienta.

Contaminações do material alteram curvas e podem comprometer o desempenho.MARGUI.


Idealmente, a umidade dever ficar abaixo de 3%, prossegue Ma, pois níveis baixos melhoram a eficiência e a qualidade do asfalto reciclado. Reginatto vai além e cita uma prática europeia ainda pouco comum no Brasil, que é fresar por camadas e formar pilhas distintas. “A capa tem percentual de betume diferente do binder. Primeiro, fresa a capa e coloca em uma pilha, depois fresa o binder e coloca em outra”, explica, observando que a separação facilita o controle do que há em cada pilha e, portanto, dosar com mais segurança.

O laboratório pode ser considerado o centro de todo o processo. Na reciclagem a frio “in situ”, executada com recicladoras do tipo WR, todo o material fresado é incorporado, além dos agregados novos, o que resulta no aumento das cotas do greide. Segundo Valmir Bonfim, presidente da Fremix, trata-se de uma solução adotada mais em estradas, de forma contínua, ou em áreas menores. Nesses casos, deve-se retirar parte do material para não criar degrau na pista. “Na reciclagem a frio em usina KMA são incorporados até 85% de RAP na mistura e empregados como camada de base”, diz ele. “Sobre ela, executa-se uma camada de revestimento usinada a quente.”

Já na reciclagem a quente em usina esse percentual fica em torno de 18%, empregando-se como camada de revestimento. “Mas essa realidade vem sendo alterada com a introdução de novos modelos de usinas a quente, que permitem a incorporação de um maior percentual de RAP”, constata Bonfim.

CONTROLE

Com o RAP caracterizado e bem-manejado, a discussão migra para a planta. Aqui, o consenso é amplo, uma vez que a configuração da usina define o teto técnico e econômico do teor reciclado. Dewes explica que, em usinas convencionais, costuma-se trabalhar na faixa de 10% a 20% (em muitos casos, para camada de rolamento), pois inserir o RAP exige elevar a temperatura do material virgem para fazer a troca térmica, reduzindo a produtividade.

Com isso em mente, Santos delimita o raciocínio por tipo de processamento: “a frio”, índices de 20% a 30% são comuns e seguros, enquanto “a quente” (com tambor dedicado ao RAP) é possível teoricamente trabalhar com percentuais bem mais elevados, “podendo chegar a 100%”. “Isso desde que haja um controle rigoroso, pois quanto maior for o teor, maior a complexidade do controle devido à variabilidade do CAP no reciclado”, argumenta.

Em teoria, o processamento “a quente” permite trabalhar com percentuais mais elevados de RAP.BODEAN COMPANY .


Um ponto que ajuda a explicar por que o RAP surpreende quando entra em percentuais maiores é que o material não é inteiramente homogêneo. Jeffrey Ma destaca que o teor de ligante envelhecido varia por fração: os finos costumam carregar mais betume oxidado, enquanto as partículas mais grossas têm menos ligante.

Por isso, é preciso segregar o RAP em faixas granulométricas sempre que possível, o que permite “enxergar” melhor o material e refinar a dosagem de CAP novo, garantindo uniformidade e durabilidade à mistura. Além disso, o controle de umidade aparece como um divisor de águas. “Manter o RAP protegido e com umidade idealmente abaixo de 3% melhora a eficiência de produção e a consistência de qualidade, uma vez que reduz a energia gasta em evaporação e estabiliza a temperatura final do CBUQ”, aponta Ma.

Consolidação do uso de reciclados no país depende de avanços no fomento e na contratação.SMSUB.


USINAS

Na usina, a discussão passa a ser térmica. Se o RAP entrar frio no misturador, o agregado virgem precisa vir superaquecido para que, após a troca de calor, a mistura atinja a temperatura de aplicação, sem “cozinhar” o ligante a ponto de degradá-lo.

Para percentuais altos, Reginatto explica que o RAP deve entrar em zona de troca térmica depois da chama (anel intermediário) ou ser aquecido em um tambor dedicado. Jeffrey Ma acrescenta que, para teores elevados, os sistemas de aquecimento em contrafluxo são particularmente adequados porque elevam o RAP acima de 160°C, “com melhor eficiência térmica e menores emissões quando comparados a arranjos de fluxo paralelo”.

Como se vê, o argumento econômico se soma ao ambiental. O RAP, que já contém ligante, pode reduzir o consumo de CAP novo. Além disso, extração e transporte reduzidos geram menos emissões. Até por isso, Bonfim acredita que a reciclagem deveria ser obrigatória no Brasil, como acontece em outros países, transformando um passivo ambiental em matéria-prima. “No caso de usinas do tipo KMA, também é possível utilizar RCD (Resíduo da Construção e Demolição), após uma etapa de britagem”, afirma. “Mas falta avançarmos com os organismos de fomento e órgãos contratantes, para termos projetos de reciclagem cada vez mais presentes no Brasil”, arremata.

Saiba mais:

Ammann: www.ammann.com/pt-BR

Fremix: https://fremix.com.br

Lintec & Linnhoff: https://lintec-linnhoff.com

Margui: www.margui.com.br

Sany do Brasil: https://sanydobrasil.com

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