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Revista M&T - Ed.304 - Junho de 2026
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INFRAESTRUTURA

Momento de atenção no saneamento

Por Redação

Foto:BRK

Ritmo de expansão dos investimentos segue insuficiente para garantir a universalização dentro do prazo estabelecido pelo Marco Legal, acendendo a luz amarela no setor

Segundo dados do Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil (ITB), a falta de acesso à água potável impacta mais de 30 milhões de brasileiros, sendo que cerca de 90 milhões de pessoas não têm acesso aos serviços de coleta de esgoto, o que afeta em cheio o desenvolvimento socioeconômico do país.

Além disso, apenas 52% do volume de esgoto gerado no país é tratado, como destaca Luana Pretto, presidente executiva do ITB. “Lançamos aproximadamente 5.400 piscinas olímpicas de esgoto bruto por dia na natureza”, afirma. Após o Novo Marco Legal, oficializado em 2020, até houve Aumento do investimento no setor. “Em 2020, esse volume era de aproximadamente R$ 90/ano por


Foto:BRK

Ritmo de expansão dos investimentos segue insuficiente para garantir a universalização dentro do prazo estabelecido pelo Marco Legal, acendendo a luz amarela no setor

Segundo dados do Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil (ITB), a falta de acesso à água potável impacta mais de 30 milhões de brasileiros, sendo que cerca de 90 milhões de pessoas não têm acesso aos serviços de coleta de esgoto, o que afeta em cheio o desenvolvimento socioeconômico do país.

Além disso, apenas 52% do volume de esgoto gerado no país é tratado, como destaca Luana Pretto, presidente executiva do ITB. “Lançamos aproximadamente 5.400 piscinas olímpicas de esgoto bruto por dia na natureza”, afirma. Após o Novo Marco Legal, oficializado em 2020, até houve Aumento do investimento no setor. “Em 2020, esse volume era de aproximadamente R$ 90/ano por habitante, chegando em 2024 a R$ 137/ano por habitante, um aumento de praticamente 50%”, posiciona Luana.

Luana Pretto, do ITB:perdas de água visíveis e ocultas. Foto:ITB

De acordo com o plano, no entanto, o país deve investir em média R$ 225/ano por habitante, ou seja, há muito por evoluir para garantir a universalização em 2033 ou mesmo em 2040. De acordo com Alexandre Anderáos, superintendente adjunto de Regulação de Saneamento Básico da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o cenário de avanço gradual, porém ainda é desigual e insuficiente. “Os diferentes componentes evoluem em ritmos distintos, com disparidades marcantes entre áreas urbanas e rurais, bem como entre regiões e municípios”, diz.

PERDAS NA REDE

No abastecimento de água, o país apresenta uma cobertura urbana relevante. Segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), o atendimento por rede alcança 92,32% da população urbana. Já no meio rural, a cobertura é bastante inferior, atendendo apenas 22,88% da população.

Em meio a essas disparidades, o setor ainda convive com níveis elevados de ineficiência, expressos, por exemplo, em colossais perdas de água na distribuição e no faturamento. Para Luana Pretto, o elevado nível de perdas é um dos problemas mais críticos. Ela cita dados do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), publicado em 2025, revelando que quase 40% do volume total de água tratada é perdida. “Pode ser por perda física, com vazamentos visíveis, ou físicas ocultas, abaixo da superfície”, explica.

Para solucionar o problema, Anderáos, da ANA, sugere uma “atuação contínua, planejada e tecnicamente orientada”. O primeiro passo, diz ele, é “conhecer o sistema” por meio de instrumentos como balanço hídrico, setorização, cadastro técnico e monitoramento. A partir desse diagnóstico, o prestador pode estruturar um plano de redução e controle, priorizando as intervenções com melhor relação de custo vs. resultado. “A viabilidade econômica está em identificar onde o investimento gera maior retorno, seja na recuperação de água faturável, no aumento da eficiência ou na confiabilidade do serviço”, acentua.

Em muitos casos, reduzir perdas é mais barato que ampliar a produção, aponta o engenheiro ambiental Alessandro Bertolino, professor da PUCPR. “Há viabilidade econômica clara, desde que os investimentos sejam bem-direcionados”, pondera o especialista, que aponta soluções como setorização de redes, controle de pressão, substituição de tubulações críticas e uso de tecnologias para monitoramento e detecção de vazamentos. De acordo com ele, há casos de perdas superiores a 50% que foram reduzidas de forma significativa por meio de gestão eficiente. “O ponto central é tratar a redução de perdas como estratégia prioritária, baseada em dados e com retorno econômico mensurável”, argumenta.

Alexandre Anderáos, da ANA:disparidades marcantes no país. Foto:ANA

De acordo com Carlos Werlang Lebelein, sócio da LMDM Consultoria, o contexto atual do setor é positivo, com grandes volumes de investimentos contratados, novos operadores e projetos, porém ainda perdura um passivo de décadas de ações insuficientes. “O alto índice de perdas é reflexo de anos de falta de investimentos”, constata. “Somente com novas tecnologias e substituição de redes degradadas poderemos melhorar esse indicador.”

OBRAS

Nos últimos anos, o aumento das obras tem sido impulsionado por uma onda de investimentos deflagrada pelo Novo Marco Legal do Saneamento (2020) e, depois, pelo Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), com foco na universalização até 2033. Apesar do volume recorde de recursos, o professor Bertolino avalia que ainda há descompassos regionais importantes, com maior concentração de obras nas regiões Norte e Nordeste, justamente para reduzir o déficit histórico de atendimento.

Desde 2023, as seleções do Novo PAC no setor já atingiram R$ 61 bilhões, com forte atuação do governo federal e participação crescente da iniciativa privada. Além disso, neste ano projeta-se um dos maiores volumes de PPPs da história, prevendo-se leilões que podem gerar mais de R$ 34 bilhões em investimentos e beneficiar aproximadamente 12 milhões de pessoas. “Há um foco estratégico em projetos estruturados pelo BNDES, especialmente em estados como CE, PB e RN, onde os índices de cobertura ainda são mais baixos”, indica.

Elevado nível de perdas de água tratada é um dos problemas mais críticos do setor. Foto:BRK

Segundo Bertolino, a expectativa é que empresas privadas atendam cerca de 50% dos municípios até o fim de 2026, com mais de R$ 88 bilhões em leilões previstos, principalmente por meio de Concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs), visando a universalização dos serviços até 2033.

Entre os casos já consolidados, destaca-se a concessão da CEDAE, no Rio de Janeiro, um dos maiores projetos da América Latina. Concessionárias privadas como Águas do Rio, Iguá e Rio+Saneamento estão executando obras de grande escala para ampliação da coleta e tratamento de esgoto, especialmente na Região Metropolitana. Outro exemplo relevante é a Sabesp, que anunciou cerca de R$ 26 bilhões em investimentos até 2027, com foco na universalização e modernização das redes.

No Sul, a concessão da Corsan, no RS, representa um avanço importante na ampliação dos serviços com participação privada. Já em escala municipal, cidades como São Francisco do Sul (SC) e Sumaré (SP) têm projetos de expansão de redes e modernização de ETEs. No curto prazo (2026–2027), há uma carteira robusta de novos projetos estruturados, muitos com apoio do BNDES e do Programa de Parcerias de Investimentos.

Outros destaques incluem PPPs no RN, na PB e em GO (Saneago), com cerca de R$ 6,3 bilhões em investimentos, além de projetos de esgotamento sanitário em mais de 100 municípios do CE e concessões no MA. Já o projeto Rio Doce (MG) prevê R$ 7,5 bilhões para universalização dos serviços em centenas de municípios. “Esses projetos devem beneficiar mais de 35 milhões de pessoas e refletem duas tendências importantes: o foco no esgotamento sanitário, onde o déficit é maior, e a regionalização dos serviços, com modelagens em blocos para viabilizar economicamente áreas menores ou menos atrativas”, complementa.

EXECUÇÃO

O especialista aponta avanço na contratação e estruturação dos projetos, mas também constata que o andamento físico das obras ainda ocorre de forma gradual, indicando a necessidade de maior velocidade na execução. “Existem muitas obras paralisadas ou inacabadas”, delineia Bertolino, destacando que, segundo o TCU, mais de 300 construções estão paralisadas no Brasil. “Esse tipo de obra está entre as mais afetadas na infraestrutura, representando uma parcela expressiva dos projetos interrompidos.”

As causas são muitas, diz ele. “Mesmo com o avanço, a principal é a deficiência nos projetos técnicos, muitas vezes elaborados com estudos incompletos ou inconsistentes, o que leva a revisões, aumento de custos e interrupções”, diz o engenheiro. “Também é comum o abandono por parte das contratadas, seja por dificuldades financeiras ou por falhas nos processos licitatórios, que permitem a entrada de empresas sem capacidade.”

Além disso, há problemas recorrentes de natureza orçamentária, como atrasos ou falta de repasse de recursos federais e dificuldades de estados e municípios em cumprir contrapartidas financeiras. Entraves no licenciamento ambiental, especialmente em áreas sensíveis, assim como dificuldades em processos de desapropriação, também contribuem para a paralisação. “Do ponto de vista territorial, estados como MA, BA e PA figuram entre os que concentram maior número de obras paralisadas, evidenciando desigualdades regionais na execução de projetos”, afirma.

Alessandro Bertolino, da PUCPR:gestão eficiente é crucial. Foto:PUCPR

Lebelein, da LMDM, reforça a percepção de evolução no setor, mas também vê atraso na marcha para a universalização dos serviços. “A meta demandará investimentos acima de R$ 500 bilhões, o que significa mais do que dobrar o patamar histórico de investimentos anuais, passando da média de R$ 20 para cerca de R$ 50 bilhões por ano”, destaca. “Para enfrentar esse cenário, o governo federal tem buscado retomar obras por meio de iniciativas no Novo PAC, com foco na conclusão de projetos já iniciados, além de medidas legais como o PL 780/24, que visa facilitar a retomada de obras de saneamento paralisadas”, arremata.

Saiba mais:
ANA: www.gov.br/ana/pt-br
BRK: www.brkambiental.com.br
Instituto Trata Brasil: tratabrasil.org.br
LMDM Consultoria: lmdm.com.br
PUCPR: www.pucpr.br


Cidade paulista é referênciano combate a perdas

Localizada no interior do estado de São Paulo, a cidade de Limeira é referência nacional em saneamento básico, figurando entre os cinco melhores municípios do país no Ranking do Saneamento 2026, divulgado em março pelo ITB, com base em dados do Sinisa 2024.
A cidade alcançou um dos menores índices de perdas de água do Brasil, significativamente abaixo da média nacional de 39,5%. Para o alcance e manutenção desse indicador, a BRK afirma investir em “tecnologia, inovação e eficiência”.
Desde o início da concessão em 1995, quando as perdas de água eram estimadas em mais de 45%, foram realizadas ações sistemáticas que resultaram na redução do índice. “A gestão integrada com ênfase na otimização de recursos, política organizacional, criação e controle de indicadores, cumprimento de prazos e envolvimento são essenciais para manter o índice de perdas abaixo da média”, ressalta Daniel Makino, gerente de eficiência operacional da BRK.
Segundo ele, o trabalho de redução de perdas é diário, incluindo pesquisa ativa de vazamentos não visíveis, reparos executados em curto prazo, manutenção preventiva de VRP’s (Válvulas Redutoras de Pressão) e ventosas, otimização de pressões, troca de hidrômetros e fiscalização de fraudes. “O uso de tecnologias como telemetria e utilização de IA ganham cada vez mais espaço na operação em busca por maior eficiência”, diz o gestor.
Atualmente, o município conta com aproximadamente 108 mil ligações de água distribuídas em 77 Distritos de Medição e Controle (DMCs). Para dar suporte a essa estrutura, a concessionária mantém uma equipe dedicada à pesquisa ativa e preventiva de vazamentos invisíveis, que monitoram 1.260 km de redes de água da cidade. “Antes, isso era realizado com hastes mecânicas, um método que depende da experiência auditiva dos técnicos”, conta Makino, destacando que o processo foi modernizado com uso de IA. “A nova tecnologia reforça o combate às perdas e garante mais agilidade e assertividade na detecção de vazamentos não visíveis”, afirma.

Concessionária reduziu as perdas em Limeira por meio de tecnologia, inovação e eficiência. Foto:BRK

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