ABRIR
FECHAR
ABRIR
FECHAR
Revista M&T - Ed.260 - Dez/Jan 2022
Voltar
Reciclagem

Desafios para uma agenda sustentável

Somente 21% das 100 milhões de toneladas de resíduos de construção e demolição geradas anualmente no Brasil são reciclados, mas não é por falta de soluções técnicas
Por Santelmo Camilo

Os Resíduos de Construção e Demolição (RCD) reciclados são considerados uma solução atraente para a construção civil. Afinal, o material pode ser empregado com sucesso dentro da própria obra geradora do entulho, seja nas etapas de base, sub-base, pavimentação ou de revestimentos.

De acordo com a Pesquisa Setorial Abrecon 2020, o Brasil gera aproximadamente 100 milhões de toneladas de RCD por ano, superior aos 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos gerados no país em 2018. Desse total, somente 21% são reciclados, reaproveitados na obra ou em outras destinações, enquanto a maior parte acaba seguindo para descarte em aterros sanitários e de inertes. “A maioria dos acaba sendo descartada clandestinamente, ou seja, fora de locais legalizados”, adverte o ambientalista Levi Torres, coordenador da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon).

Vale registrar que a reciclagem de RCD é uma atividade relativamente nova no Brasil, com a primeira usina tendo surgido apenas em 1993. Contudo, as dificuldades para se implementar uma agenda sustentável nesse setor seguem evidentes.

Atualmente, o transportador de entulho (conhecido como ‘caçambeiro’) desempenha um papel de protagonista na gestão de RCD, pois é quem lida com o gerador e define o local de destinação. O problema é que, muitas vezes, a área escolhida é um aterro clandestino. “A regulamentação do transporte significa formalizar o papel de cada elo na cadeia, ou seja, o transportador transporta e o destinatário recebe e trata os resíduos”, aponta Torres. “Ao gerador, cabe a função de se responsabilizar pelo material até uma destinação legal e adequada. Por sua vez, o órgão público tem a incumbência de zelar pela gestão correta e legal do RCD.”

Entre os benefícios da regulamentação do transporte de RCD estão o rastreamento do entulho do gerador até a destinação final, re


Os Resíduos de Construção e Demolição (RCD) reciclados são considerados uma solução atraente para a construção civil. Afinal, o material pode ser empregado com sucesso dentro da própria obra geradora do entulho, seja nas etapas de base, sub-base, pavimentação ou de revestimentos.

De acordo com a Pesquisa Setorial Abrecon 2020, o Brasil gera aproximadamente 100 milhões de toneladas de RCD por ano, superior aos 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos gerados no país em 2018. Desse total, somente 21% são reciclados, reaproveitados na obra ou em outras destinações, enquanto a maior parte acaba seguindo para descarte em aterros sanitários e de inertes. “A maioria dos acaba sendo descartada clandestinamente, ou seja, fora de locais legalizados”, adverte o ambientalista Levi Torres, coordenador da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon).

Vale registrar que a reciclagem de RCD é uma atividade relativamente nova no Brasil, com a primeira usina tendo surgido apenas em 1993. Contudo, as dificuldades para se implementar uma agenda sustentável nesse setor seguem evidentes.

Atualmente, o transportador de entulho (conhecido como ‘caçambeiro’) desempenha um papel de protagonista na gestão de RCD, pois é quem lida com o gerador e define o local de destinação. O problema é que, muitas vezes, a área escolhida é um aterro clandestino. “A regulamentação do transporte significa formalizar o papel de cada elo na cadeia, ou seja, o transportador transporta e o destinatário recebe e trata os resíduos”, aponta Torres. “Ao gerador, cabe a função de se responsabilizar pelo material até uma destinação legal e adequada. Por sua vez, o órgão público tem a incumbência de zelar pela gestão correta e legal do RCD.”

Entre os benefícios da regulamentação do transporte de RCD estão o rastreamento do entulho do gerador até a destinação final, recolhimento de ISS, redução da incidência de doenças, estímulo à competição, monitoramento de caçambeiros e destinatários e melhorias no planejamento urbano, incluindo avanços na limpeza, drenagem, paisagística e, ainda, gestão financeira. “Pode-se argumentar que a regulamentação do transporte de RCD não é capaz de resolver tudo de uma vez, porém encaminha as soluções para estancar os crimes ambientais relacionados à gestão de RCD”, diz o coordenador.

GESTÃO

Para ele, a reciclagem de RCD segue baixa no país devido à falta de apoio do poder público e de conscientização das construtoras e da própria população. E essa falta de atenção impacta diretamente na viabilidade técnico-financeira de um destinatário de RCD, por exemplo.

Do ponto de vista puramente técnico, ainda há uma defasagem logística considerável no parque tecnológico, especialmente no tratamento dos resíduos. De acordo com Torres, é grande a dificuldade das usinas para receber os resíduos e vender o agregado proveniente da reciclagem. “Nossa estratégia de enfrentamento é qualificar o empreendedor no curto prazo, para que possa lidar com a situação de uma forma competitiva”, explica. “A comunicação é o caminho nesse sentido, pois é crucial se posicionar com firmeza para disseminar o propósito da reciclagem de RCD.”

Para incentivar o avanço da reciclagem, a Abrecon tem realizado programas de qualificação que já formaram mais de 1.000 alunos nos cursos de Gestão Integrada de RCD e Operação de Usina de Reciclagem de Entulho. O curso – que, segundo Torres, é único no Brasil – inclui visita guiada e professores qualificados, tornando-se referência para quem pretende empreender no setor.

As pesquisas da entidade têm possibilitado a criação de modelos como a Área de Transbordo e Triagem (ATT), mais resistente às intempéries políticas e ambientais. Por meio desses esforços, a Abrecon busca contribuir para o avanço do setor de resíduos no Brasil. “Essas discussões possibilitam a criação de projetos para estimular os empresários a montar empreendimentos sustentáveis, além de chamarem a atenção para os mitos que ainda atravancam o desenvolvimento das usinas de reciclagem”, garante Torres.

O próprio Manual de Aplicação do Agregado Reciclado (MARE) também é fruto das pesquisas realizadas pela Abrecon ao longo de anos. Reforçar o argumento de vendas das usinas é o papel do projeto, que em parte substituiu as grandes consultorias de análise dos produtos. “Além disso, a Abrecon tem enviado comunicados ao ministério público de todos os estados e às comarcas dos maiores municípios”, ressalta o coordenador. “O objetivo é criar uma cultura nas promotorias para que saibam lidar com a questão dos resíduos da construção.”

Isso porque, segundo Torres, a maioria dos técnicos do MP não se atenta aos detalhes da resolução Conama nº 307/2002 e às ABNTs. “Por outro lado, estamos criando diretivas para o planejamento dos destinatários de RCD no Brasil, além de promover em mídias alternativas nossas campanhas de combate ao descarte irregular de entulho”, informa.

PROCESSAMENTO

A despeito da citada defasagem no processo, já existem diferentes soluções que são específicas para a reciclagem de RCD. Entre os mais utilizados estão as chamadas Picking Stations e os sopradores de ar, configurados com esteiras que facilitam a separação do material e, assim, tornam o trabalho mais ágil e ergonômico.

Nesse processo, também é utilizado o trommel, espécie de peneira rotativa responsável por fazer a triagem mecânica dos resíduos recebidos na usina. Ao entrar em funcionamento, esse equipamento é capaz de processar toneladas de resíduos por mês, gerando matéria-prima que posteriormente pode ser aplicada em obras, como base para pavimentos, drenagens, calçamentos e cascalhamento de vias não pavimentadas.

Na cidade de Canoas (RS), por exemplo, há pouco mais de um ano foi inaugurada uma das maiores usinas recicladoras de RCD do Brasil, com capacidade para produzir 150 toneladas de matéria-prima por hora, processando 15 mil m³ de material em apenas um mês. Instalada numa área de aproximadamente 21 hectares, a usina faz a segregação e a triagem de resíduos, além de beneficiamento do passivo.


Usina em Canoas (RS) é uma das maiores do Brasil, com capacidade para produzir 150 t/h de matéria-prima

Segundo a SBR, empresa que venceu a licitação para construir a usina, o trommel atua no início do trabalho, o momento mais complexo da reciclagem, quando se recebe o material e se faz a separação, com a retirada de terra e outras partículas finas. E a empresa já opera de maneira semelhante em Jundiaí (SP), onde a usina implantada mudou o cenário de limpeza urbana da região.

Antes da sua chegada, o município paulista contava com 1.037 pontos de descarte irregular de lixo, que foram reduzidos a pouco mais de 30 com o trabalho de reciclagem. No processo de beneficiamento e processamento, são utilizados equipamentos de britagem móvel ou fixa, mandíbulas, caçambas trituradoras e peneiras, transformando o resíduo em agregado de diferentes tamanhos.

A partir desse estágio e em conformidade com a norma técnica ABNT 15.116, os agregados reciclados passam a ser aplicados em obras. Desse modo, as usinas de britagem cumprem um papel importante na logística reversa do RCD no Brasil. Tradicionais no país, as unidades fixas ainda predominam, atendendo a empreendimentos comerciais e residenciais em grandes centros urbanos, que geram uma grande quantidade de resíduos.

Geralmente, as usinas recebem o material que, por não ter aplicação imediata no escopo da obra, é movimentado por caminhão ou caçambinha para ser reciclado e comercializado para reutilização em outros empreendimentos.


Usinas móveis contam com britadores primários, que fazem a bica corrida para uso em pavimentação

APLICAÇÕES

Mas o uso de usinas móveis também vem crescendo, principalmente em operações de médio a grande porte e aplicações que vão além do setor de reciclagem, como a britagem de material extraído do desmonte de rochas para obras de infraestrutura, por exemplo.

O diretor da R3ciclo, Hewerton Bartoli, explica que existem aplicações específicas para ambos os modelos. “As usinas móveis são utilizadas em obras de médio e grande porte, principalmente de infraestrutura e demolição”, diz ele, ressaltando que o conceito une mobilidade, produtividade e rapidez de instalação. “A utilização da usina móvel e a transformação do resíduo em produto final no próprio local de geração ajuda a reduzir o transporte e a destinação, além de economizar com a compra de agregado natural.”

Diferentemente das unidades móveis, as usinas fixas são indicadas para situações que exigem o ciclo completo da reciclagem. A partir de peneiras fixas, as usinas recebem o material, separam, britam e fazem o peneiramento. “As usinas fixas produzem agregados classificados em diferentes granulometrias, normalmente areia, pedrisco, brita, bica corrida e rachão, o que permite uma diversificação do público consumidor, facilitando a venda do agregado”, conta Bartoli. “A usina móvel também pode fazer isso, mas vai precisar de uma peneira móvel.”

Para ele, um dos problemas da britagem móvel é o custo para transportar e descartar o resíduo, normalmente assumido por quem presta o serviço, que precisa dar destinação ao material britado. Contudo, ganha-se com a mobilidade dos equipamentos no trabalho. “As usinas móveis têm britadores primários, que se limitam a fazer apenas a bica corrida, com uso mais comum em pavimentação”, arremata.

Tecnologia possibilita a separação de vergalhões

Os setores de demolição e reciclagem sempre enfrentam desafios no processamento dos materiais armados, incluindo aumento de prazos e custos. Isso ocorre porque o ferro, quando processado por britadores, muitas vezes corta a correia transportadora e pode causar paradas nas máquinas, prejudicando a operação.


Caçamba de mandíbulas BF90.3 promete britar material armado na granulometria desejada

Pensando nesta criticidade, a fabricante italiana MB Crusher desenvolveu a caçamba trituradora de mandíbulas BF90.3, que brita o material armado na granulometria desejada, enquanto o ferro sai junto ao material pela força de gravidade. “Adicionalmente, é possível separar o ferro em pilhas com um separador de 24 Volt, um dispositivo instalado na caçamba e acionado diretamente da cabine da escavadeira”, explica a empresa.

Saiba mais:
Abrecon: https://abrecon.org.br
MB Crusher: www.mbcrusher.com
R3ciclo: https://r3ciclo.com.br