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Revista M&T - Ed.87 - Fev/Mar 2005
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COMBUSTÍVEL

Biodiesel já está regulamentado

Novo combustível é autorizado para o uso comercial adicionado ao diesel

Por: Wilson Bigarelli


Por determinação do governo federal, a partir de janeiro de 2005 o combustível usado em motores a diesel poderá sofrer adição de 2% de biodiesel, sem que tal prática seja considerada um “batismo”, com sua conversão para uso obrigatório no prazo de três anos. A introdução do biodiesel reforça a promoção do uso de fontes renováveis de energia e a diversificação da matriz energética brasileira. O uso do novo combustível também permitirá ganhos à economia nacional a partir da redução das importações brasileiras de diesel de petróleo, da preservação do meio ambiente e da geração de emprego e renda no campo e na indústria de bens e serviços.
Atualmente, 2 milhões de veículos rodam no continente europeu com adição de biodiesel. Na Alemanha e na Áustria, empreg


Por: Wilson Bigarelli


Por determinação do governo federal, a partir de janeiro de 2005 o combustível usado em motores a diesel poderá sofrer adição de 2% de biodiesel, sem que tal prática seja considerada um “batismo”, com sua conversão para uso obrigatório no prazo de três anos. A introdução do biodiesel reforça a promoção do uso de fontes renováveis de energia e a diversificação da matriz energética brasileira. O uso do novo combustível também permitirá ganhos à economia nacional a partir da redução das importações brasileiras de diesel de petróleo, da preservação do meio ambiente e da geração de emprego e renda no campo e na indústria de bens e serviços.
Atualmente, 2 milhões de veículos rodam no continente europeu com adição de biodiesel. Na Alemanha e na Áustria, emprega-se o biodiesel puro, enquanto nos demais países ele é misturado ao diesel na proporção de 5% a 20%. Em 2005, 2% de todo o combustível consumido na Europa deverá vir de fontes renováveis. Em 2010, esse percentual sobe para 5,75%.
No Brasil, já há várias iniciativas regionais e essa questão vem sendo debatida no âmbito do Probiodiesel (Programa Brasileiro de Desenvolvimento Tecnológico de Biodiesel), criado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, em outubro de 2002, visando “promover o desenvolvimento científico e tecnológico de biodiesel, a partir de óleos vegetais puros e/ou residuais”.
No último dia 14 de janeiro, um novo impulso foi dado a esse programa, com a sanção da lei 11.097 que autoriza a introdução do biodiesel na matriz energética brasileira. A Lei estabelece que, nos próximos três anos, será autorizada a adição de 2% (B2) de biodiesel ao diesel de petróleo. A partir de 2008, a mistura será obrigatória neste percentual. A adição de biodiesel ao diesel de petróleo será elevada para 5% a partir de 2013, também de forma obrigatória.


Economia — Fatores econômicos e estratégicos também tornam o biodiesel bem-vindo. Em 2004, a frota nacional consumiu cerca de 37 bilhões de litros de óleo diesel. Em 2005, esse volume subirá para 40 bilhões de litros, conforme projeção da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A ideia de se acrescentar a médio prazo 5% de biodiesel ao óleo originário do petróleo fórmula conhecida como B5, é uma iniciativa similar à que ocorre com a gasolina, que recebe cerca de 25% de etanol.
Com essa medida, estima-se que o Brasil reduza em 33%, de um total de 6 bilhões de litros, suas importações de diesel, gerando uma economia anual de US$ 350 milhões, além de muitos empregos diretos e indiretos. No entanto, substituir o óleo diesel pelo vegetal não será tarefa fácil, já que o tradicional continua sendo mais barato. Além disso, o Brasil importa de 15% a 18% do óleo diesel que consome e, para fazer a troca, será necessária uma grande produção de matéria-prima vegetal, seja ela a soja, o dendê, a mamona, o girassol ou outro insumo.
Hoje, a produção de biodiesel brasileira ainda é experimental, mas, para substituir 5% do diesel importado pelo de óleos vegetais, será preciso sustentar uma demanda de aproximadamente 3,5 bilhões de biodiesel. Uma das alternativas mais promissoras utiliza o etanol, o álcool extraído da cana-de-açúcar, através de um processo desenvolvido pela equipe coordenada pelo professor Miguel Dabdoub no Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (Ladetel) da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto.
Os pesquisadores chegaram a um processo inovador para a obtenção de biodiesel com a descoberta de eficientes catalisadores, substâncias que aceleram a reação química e transformam óleos de soja, dendê, milho ou mamona, por exemplo, mais o álcool, em um novo produto. O processo de transformação de óleos vegetais e álcool em biodiesel, conhecido como transesterificação, é relativamente simples. O óleo vegetal é misturado ao álcool e aos catalisadores em um reator e sofre agitação por meia hora. Para cada mil litros de óleo são utilizados 200 litros de etanol e de 0,8% a 1% dos agentes catalisadores.
Uma das vantagens do novo combustível é a possibilidade de produzi-lo a partir do óleo de várias plantas. São oleaginosas com diferentes índices de produtividade e adaptação ao mosaico regional do país. Assim, a soja produz 400 litros (1) de óleo por hectare (ha), o girassol, 800 l/lia, a mamona, 1.200 l/ha, o babaçu, 1.600 1/ ha, o dendê, 5.950 l/ha, o pequi, 3.100 l/ha, o milho, 160 l/ha, o algodão, 280 l/ha, e a macaúba, 4 mil l/ha. “Utilizamos nos nossos experimentos 11 variedades de óleos vegetais, além de óleos de fritura já usados”, explica Dabdoub.
Independentemente do óleo a ser usado, o processo de produção do bio¬diesel desenvolvido pelo Ladetel possui outras vantagens que o tornam superior também na fabricação de biodiesel de metanol. “Conseguimos fazer a reação em 30 minutos, enquanto o processo tradicional leva seis horas. Com isso, somos 12 vezes mais produtivos”, diz Dabdoub. Essas novas características aliadas à transformação química que acontece a frio, na temperatura ambiente, tornaram o processo de produção do biodiesel tecnicamente viável, reduzindo o consumo energético e os custos operacionais.

100% nacional — O uso exclusivo traz inúmeras vantagens, a começar pelo fato de ser um combustível totalmente nacional e 100% renovável. Há também ganhos ambientais, como a redução da emissão de gases poluentes. O uso do biodiesel na sua forma pura diminui a emissão de dióxido de carbono em 46% e de material particulado em 68%. Se for usada a mistura B5, a redução de fumaça preta chega a 13%. Segundo Dabdoub, o biodiesel puro é isento de enxofre, componente do óleo diesel e gerador de chuva ácida.
Para provar a eficácia do biodiesel de etanol, Dabdoub fechou acordo com empresas, entidades e instituições de pesquisa para a realização de testes de desempenho, consumo e potência. Essas parcerias, que incluem também usinas de álcool da região de Ribeirão Preto, foram a fonte de grande parte dos recursos financeiros que o Ladetel utilizou nos estudos.
Dabdoub garante que a tecnologia evoluiu de tal forma que “hoje é possível produzir com alta eficiência o biodiesel de etanol, empregando qualquer óleo vegetal”. E essa tecnologia já está disponível para ser transferida e aplicada na produção comercial. A baixa viscosidade do biodiesel produzido “está perfeitamente de acordo com os requerimentos de viscosidade dos mais modernos motores, que utilizam bombas de injeção ciclo rotativas e de injeção eletrônica, fazendo dele o maior competidor do diesel derivado de petróleo”, assegura.


Viabilidade — A equipe do Ladetel e seus parceiros avançam nos processos produtivos. Eles desenvolveram uma unidade industrial de produção barata com custo em torno de R$ 35 mil e de “montagem simples”. Esse micro usina é capaz de produzir 90 litros de biodiesel por hora. Graças à tecnologia que emprega, a produção de biodiesel etílico tornou-se mais econômica e eficiente em relação a outros modelos. As reações químicas ocorrem em cerca de 30 minutos, ao contrário do processo europeu e americano, que demora seis horas. “Com isso somos 12 vezes mais produtivos”, afirma Dabdoub.
Para sanar as incertezas da indústria automobilística, resistente a um biocombustível de álcool de cana até então desconhecido, uma série de parcerias foi estabelecida para os testes em motores. Com a PSA-Peugeot Citroen, estão sendo realizados testes em veículos leves simultaneamente na França e no Brasil. O biodiesel de Ribeirão Preto passou pelos testes de qualidade e foi aprovado para a utilização dentro das normas e padrões europeus.
Um outro teste significativo foi feito pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Jaboticabal, que ficou responsável por verificar a eficiência do produto em tratores agrícolas. Os testes foram feitos com um trator Valtra, modelo BM100, com 100 cavalos de potência no motor, equipado com um sistema de medição de combustível desenvolvido na Unesp, através de uma parceria entre a Valtra do Brasil e a Cooperativa dos Cafeicultores e Citricultores de São Paulo (Coopercitrus).
O equipamento foi avaliado em condição de preparo de solo com uma grade aradora sob cinco tipos de mistura biodiesel-diesel de petróleo: B100 (apenas biodiesel), B25 (25% de biodiesel e 75/o de diesel), B50 (metade biodiesel e metade óleo), B75 (75% de biodiesel e 25% de óleo) e B0 (somente diesel). O funcionamento do trator foi normal com todas as misturas. Até o limite de 50% de biodiesel não foram notadas alterações significativas no consumo. Somente quando o trator funcionou com 100% de biodiesel, o consumo aumentou, em média, 11%.
Outra fonte de óleo, não tão volumosa, mas importante sob o ponto de vista ambiental, é a dos residuais. O Ladetel mantém um subprojeto do Projeto BiodieselBrasil que utiliza óleos descartados de refeitórios universitários da USP nos campi de Ribeirão Preto, Pirassununga, Piracicaba e São Paulo e da Unesp de Jaboticabal. Além desses, o laboratório recebe cerca de 100 mil litros de óleo por mês doados pela rede de lanchonetes McDonald's do Estado de São Paulo.
Alternativas regionais - Além da USP de Ribeirão Preto, existe no Brasil uma extensa rede que envolve universidades, institutos de pesquisa, associações empresariais, agências reguladoras e de fomento, empresas, cooperativas e organizações não governamentais (ONGs) interessadas no desenvolvimento e na implementação do biodiesel. Um trabalho importante é feito pelo Tecpar, um dos pioneiros na pesquisa da mistura álcool etílico e diesel de petróleo como combustível.
Desde 1998, vários ônibus de empresas associadas à Urbanização de Curitiba (Urbs) circulam na cidade com uma mistura de óleo diesel (89,4%), etanol (8%) e um aditivo à base de soja (2,6%), batizada de Mistura de Álcool no Diesel (MAD-8), combustível que algumas vezes é erroneamente chamado de biodiesel. Ocorre que, segundo normas internacionais, a simples mistura não caracteriza o produto. O aditivo utilizado foi fabricado e fornecido pela empresa Ecomat de Mato Grosso. Em outra pesquisa do Tecpar, ônibus circularam em Curitiba com biodiesel metílico importado dos Estados Unidos e diesel fóssil numa proporção de 20-80.
No Rio de Janeiro, uma experiência realizada pelo Instituto Alberto Luiz de Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o governo do estado, testou com sucesso um ônibus movido a biodiesel feito com óleo reciclado doado pela rede de lanchonetes McDonald's. Esse tipo de óleo residual usado no Rio também é objeto de estudo no Ladetel, que mantém um subprojeto que faz parte do Projeto Biodiesel Brasil, nome do estudo coordenado por Dabdoub.
O óleo de mamona também é o principal ingrediente de estudos realizados na Embrapa. A instituição, em parceria com o Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB), desenvolveu um equipamento capaz de transformar óleo vegetal em óleo diesel vegetal, com características físico-químicas diferentes do biodiesel. No Ceará, um projeto de desenvolvimento de biodiesel é liderado pela empresa Tecnologias Bioenergéticas (Tecbio), incubada no Parque Tecnológico da Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial (Nutec). Des¬de 2004, a frota de ônibus da empresa Guanabara, de Fortaleza, começou a ser abastecida com biodiesel à base de mamona produzido pela Tecbio.

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