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30 de agosto de 2012
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Locação

Problemas como a chuva tornam a locação atípica na "Terra do Sol"

Na região Nordeste, há particularidades que singularizam a atividade de rental, exigindo dos competidores locais uma percepção apurada das condições climáticas e culturais, entre outros aperfeiçoamentos

Quando o assunto é locação de equipamentos, aquele ditado que afirma existir diversos “Brasis” dentro do Brasil faz todo o sentido. É isso que visa demonstrar a série de reportagens sobre locação da revista M&T, que tem inicio nesta edição. E, para inaugurá-la, nada mais oportuno do que falar da região brasileira mais ascendente em termos de grandes projetos de construção nos últimos anos: o Nordeste. E o mercado de locação nos nove estados que compõem a “Terra do Sol” tem características ímpares, como demonstram os especialistas atuantes no local.

Comecemos pela Associação Baiana das Empresas Locadoras de Máquinas e Equipamentos (Abelme), cujo presidente, Arthur Luiz Brandão Vieira, sumariza o momento de instabilidade que o setor de rental atravessa. Segundo ele, isso está diretamente ligado ao volume previsto de investimentos em obras que não saíram do papel em 2011 e no primeiro semestre de 2012. “Falta obra de maneira geral. Temos grandes projetos de construção ferroviária em andamento, como a Ferrovia Leste-Norte, mas os trechos estão sendo liberados gradativamente, não gerando grande demanda por locação”, diz ele. “E isso ocorre por uma série de fatores, entre eles os problemas de irregularidade e as intervenções do Ibama, que atravancam o andamento de algumas obras.”

O sentimento relatado por Vieira é consonante com o das principais empresas de locação da Bahia e de algumas que atuam em todo o Nordeste. Essas impressões seriam abordadas em momentos de compartilhamento de informações entre os associados à Abelme. Mas a avaliação de Vieira também é, em parte, corroborada por empresas de locação de atuação nacional e que têm ampliado seus negócios no Nordeste.

É o caso da Escad Rental, como explica o diretor comercial Eurimilson Daniel. Ele avalia que os investimentos em grandes obras iniciadas na região nos últimos anos continuam em andamento, mas reforça que os novos investimentos previstos não se concretizaram como o programado e isso arrefeceu o mercado nordestino de locação. “Isso quer dizer que as obras atendidas em 2010 continuam sendo atendidas pela mesma frota até hoje, não sobrando espaço para novas locações”, explica ele. “Se acrescentarmos alguns novos projetos que começaram de 2011 para cá, como as reformas e construções dos estádios de futebol que atenderão à Copa de 2014, e subtrairmos outros que encerraram nesse período, teremos como resultado


Quando o assunto é locação de equipamentos, aquele ditado que afirma existir diversos “Brasis” dentro do Brasil faz todo o sentido. É isso que visa demonstrar a série de reportagens sobre locação da revista M&T, que tem inicio nesta edição. E, para inaugurá-la, nada mais oportuno do que falar da região brasileira mais ascendente em termos de grandes projetos de construção nos últimos anos: o Nordeste. E o mercado de locação nos nove estados que compõem a “Terra do Sol” tem características ímpares, como demonstram os especialistas atuantes no local.

Comecemos pela Associação Baiana das Empresas Locadoras de Máquinas e Equipamentos (Abelme), cujo presidente, Arthur Luiz Brandão Vieira, sumariza o momento de instabilidade que o setor de rental atravessa. Segundo ele, isso está diretamente ligado ao volume previsto de investimentos em obras que não saíram do papel em 2011 e no primeiro semestre de 2012. “Falta obra de maneira geral. Temos grandes projetos de construção ferroviária em andamento, como a Ferrovia Leste-Norte, mas os trechos estão sendo liberados gradativamente, não gerando grande demanda por locação”, diz ele. “E isso ocorre por uma série de fatores, entre eles os problemas de irregularidade e as intervenções do Ibama, que atravancam o andamento de algumas obras.”

O sentimento relatado por Vieira é consonante com o das principais empresas de locação da Bahia e de algumas que atuam em todo o Nordeste. Essas impressões seriam abordadas em momentos de compartilhamento de informações entre os associados à Abelme. Mas a avaliação de Vieira também é, em parte, corroborada por empresas de locação de atuação nacional e que têm ampliado seus negócios no Nordeste.

É o caso da Escad Rental, como explica o diretor comercial Eurimilson Daniel. Ele avalia que os investimentos em grandes obras iniciadas na região nos últimos anos continuam em andamento, mas reforça que os novos investimentos previstos não se concretizaram como o programado e isso arrefeceu o mercado nordestino de locação. “Isso quer dizer que as obras atendidas em 2010 continuam sendo atendidas pela mesma frota até hoje, não sobrando espaço para novas locações”, explica ele. “Se acrescentarmos alguns novos projetos que começaram de 2011 para cá, como as reformas e construções dos estádios de futebol que atenderão à Copa de 2014, e subtrairmos outros que encerraram nesse período, teremos como resultado a constatação de que a frota mobilizada é basicamente a mesma”, complementa.

Em contrapartida, Daniel avalia que o boom esperado desde 2010 resultou no surgimento de novos players de locação concorrendo na região a partir daquele ano. Alguns, como ele classifica, bem-estruturados, mas outros, nem tanto. “Mas o fato é que aumentou a competitividade, o que gerou redução dos preços de locação”, afirma. Ele afere que o grande número de competidores no Nordeste também se deve à facilidade de crédito conferida pelo Banco do Nordeste. “Houve equipamento importado comprado com financiamento praticado com as mesmas taxas do Finame, do BNDES, e só disponível para produtos com mais de 60% de nacionalização, o que facilitou muito a aquisição de máquinas importadas por pequenos competidores locais”, diz.

Estratégias de competição

A avaliação de que o mercado de locação nordestino poderia estar melhor é também compartilhada por André Leão Ribeiro, diretor executivo da Fornecedora, e por Cândido Terceiro, diretor comercial da A Geradora. As duas empresas atuam fortemente na região, onde possuem um longo histórico do segmento de locação.

No caso da Fornecedora, Ribeiro relata que a aposta da empresa é no profissionalismo. Detentora de uma frota de 350 equipamentos, sendo 220 deles da Linha Amarela e o restante distribuído entre equipamentos de movimentação industrial, como plataformas elevatórias e empilhadeiras, a empresa atua da Bahia ao Piauí, com filial em seis dos nove estados do Nordeste. “A Região carece de prestadores de serviço com maior nível de formalidade”, diz ele. “Quando grandes construtoras iniciam projetos por aqui, essa exigência é muito forte e o fato de determos essa expertise nos coloca um passo à frente”, complementa.

Ribeiro credita o atraso de desenvolvimento do Nordeste, quando comparado ao Sul e Sudeste, à precária especialização dos concorrentes locais. “Somente após o segundo mandato do governo Fernando Henrique Cardoso é que houve investimento pesado em infraestrutura local. Foi então que começou a ser desenvolvido aqui um mercado potencial para locação de equipamentos”, avalia o executivo.

Para A Geradora, o Nordeste, sua região de origem, hoje representa 40% dos seus negócios de locação. A empresa adquiriu recentemente a Poliservice, sediada em São Bernardo do Campo e com filiais no Rio de Janeiro e Florianópolis, consolidando um parque de grupos geradores para locação de 412 megawatts, o que seria suficiente para abastecer uma cidade de 600 mil habitantes. Essa transação é responsável por grande parte da expansão da A Geradora, que agora detém uma operação que pretende faturar R$ 260 milhões em 2012.

Cândido Terceiro, por sua vez, lembra que a frota da empresa não é composta apenas por grupos geradores. “Temos ainda uma frota com mais de mil compressores e duas mil torres de iluminação, além de cerca de 200 minicarregadeiras e miniescavadeiras”, diz ele. A frota da empresa é complementada por outros 500 equipamentos, divididos entre manipuladores telescópicos e plataformas elevatórias, além de mais de três mil equipamentos pequenos, como motobombas, mangotes e compactadores manuais. “Concordo que o grande mercado de locação no Nordeste está nas obras de infraestrutura e isso ocorre em função da grande quantidade de projetos que ainda precisam ser realizados”, sintetiza o especialista.

Dificuldades regionais

Para atender esse mercado, Cândido destaca a necessidade de sintonia cultural, principalmente em relação ao clima. Isso, segundo ele, ocorre porque há um período de recesso por conta das férias entre dezembro e janeiro e, a partir de maio, o ínicio das chuvas, que inibem o avanço de obras, causando ociosidade de boa parcela do parque de máquinas disponíveis para locação. “A estratégia nesse caso é ampliar o giro de máquinas, mobilizando-as rapidamente para outras regiões”, diz.

O giro de máquinas por regiões oportunas também é, para Ribeiro, da Fornecedora, a principal saída. E ele pode ser realizado somente entre os estados nordestinos. Por estar presente em todos os estados da região, o executivo explica que o conhecimento climático de cada um deles permite que se faça o giro de forma eficiente. “Isso porque, enquanto as chuvas no Ceará e Piauí vão de fevereiro a maio, na Bahia e Pernambuco vão de maio a agosto e outros estados também têm momentos de chuvas diferentes”, explica.

Os associados à Abelme idealizaram uma forma conjunta de vencer o desafio do giro de máquinas para fugir dos períodos chuvosos. Segundo Arthur Vieira, pequenos locadores se reúnem nessas épocas para formatar uma espécie de comboio e, assim, viabilizar o custo de mobilização e desmobilização para as outras regiões brasileiras. “Essa alternativa é viável para frotas acima de 50 equipamentos, o que nos levou a essa solução”, diz ele.

Daniel, da Escad, concorda com a possibilidade de fazer o giro de máquinas por regiões para fugir da sazonalidade imposta pelos períodos chuvosos. Porém, ele lembra que atualmente as incertezas climáticas impostas por fenômenos como o El Niño dificultam essa identificação. “Além disso, com o fortalecimento dos players locais em cada estado, a penetração fica cada vez mais difícil. Principalmente no Nordeste, onde o relacionamento é um forte indicador, até mesmo em obras públicas”, complementa.

Modalidades de locação

Mesmo com essas adversidades, a média de ocupação da frota da A Geradora ainda se mantém boa, ficando na faixa dos 75%, algo que também está atrelado às preferências por modalidades de locação praticadas principalmente no Nordeste. “Nós, por exemplo, temos como característica locar sem operador, podendo até auxiliar no treinamento no caso da utilização de alguns equipamentos, como as minicarregadeiras e miniescavadeiras”, relata ele.

A locação sem operador tem se tornado uma prática mais usual para a maioria das empresas, segundo Ribeiro, da Fornecedora. No seu caso específico, o executivo lembra que a filosofia sempre foi não estabelecer critérios de locação com ou sem operador, por hora ou por m³ escavado etc. “Sempre pensamos que a locação deveria ser personalizada, mas boa parte dos nossos concorrentes locais não aceitava locar máquinas sem operador há alguns anos, com a justificativa de que somente o operador próprio poderia resguardar a máquina, elevando a sua vida útil”, lembra ele. Esse conceito veio por terra a partir de meados da década passada, quando as grandes construtoras passaram a operacionalizar obras no Nordeste com a preferência de locar sem operador. “A partir daí os locadores perceberam que as construtoras de grande porte tinham planejamentos de manutenção bastante criteriosos, capazes de elevar ainda mais a vida útil de suas máquinas, o que reduziu a resistência pela locação sem operador”, diz Ribeiro.

O executivo pondera que, entre as construtoras nordestinas, ainda há a preferência por locar com operador, algo que ocorre porque elas preferem transferir a responsabilidade trabalhista para a rental. “Mas isso é bastante relativo, pois mesmo que o operador seja contratado da locadora, a construtora é corresponsável e também pode ser acionada juridicamente em causas trabalhistas”, avalia ele.

Daniel, da Escad, complementa que, além da corresponsabilidade, a construtora assume pagar taxa maior de locação quando opta pelo modelo com operador. “A atividade de locação não recolhe Imposto Sobre Serviço (ISS), pois o sistema tributário brasileiro entende que esse é o fornecimento de um bem móvel que precisa ser operado pelo locatário para gerar produção. Uma vez locado com a mão de obra, o enredo muda totalmente, esse imposto (que vai de 3,5% a 5%) passa a ser recolhido e o valor tem de ser repassado no custo da locação”, finaliza.