Escassez de profissionais já compromete algumas obras
Especialistas do setor apontam as principais razões para a escassez de mão de obra qualificada nos canteiros de obras e sugerem soluções para o problema

Uma situação inusitada está se tornando comum entre locadoras de guindastes e demais empresas que operam com frotas de equipamentos. Diante da demanda do mercado, essas empresas estão investindo na ampliação de seus respectivos parques de máquinas, mas, em alguns casos, os equipamentos adquiridos chegam a ficar vários dias parados no pátio pela simples falta de operador. A escassez de mão de obra qualificada atinge toda a cadeia da construção civil, abrangendo desde a função de engenheiro até a de pedreiro e servente, passando pelos técnicos responsáveis pela operação e manutenção dos equipamentos mobilizados nos canteiros de obras.
Na área de equipamentos, esse apagão chega a provocar uma disputa velada, entre contratantes e contratados, pela mão de obra disponível: são clientes assediando os operadores da construtora, que, por sua vez, cresce os olhos sobre os mecânicos da concessionária ou locadora contratada para atendê-la. Diante do volume de obras em execução no País, o gargalo na área de recursos humanos mostra-se mais comprometedor do que se poderia imaginar. “Está mais fácil vender equipamento do que encontrar um profissional capacitado para operá-lo”, chegou a afirmar Yoshio Kawakami, presidente da Volvo Construction Equipment, em alusão ao problema.
Especialistas apontam uma série de motivos para esse déficit. Na visão de Eurimilson João Daniel, diretor da locadora de equipamentos Escad Rental, o crescimento econômico do País deve estar, obrigatoriamente, apoiado sobre uma sólida base educacional. “Temos a sétima maior economia do mundo, à frente de potências como a França e Reino Unido, mas nosso ensino se classifica no irrisório 53º lugar em um ranking de 65 nações, atrás de países como o Uruguai e Colômbia. Ou seja, há um abismo entre os nossos índices de desenvolvimento e a disponibilidade de mão de obra qualificada”, afirma.
Formação deficiente
O executivo cita ainda um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que aponta que cerca de 6 milhões de brasileiros não possuem conhecimentos básicos para ocupar as novas oportunidades de emprego proporcionadas pela retomada do crescimento econômico. “O analfabetismo funcional atinge 26% da população com idade acima de 15 anos, o que reforça a necessidade de um trabalho de longo prazo para o País expandir qualitativamente.” Segundo Daniel, a Escad Rental conta com uma frota de 500 equipamentos e emprega 80 operadores flutuantes. “Nossa vocação, além de formar profissionais, é pulverizar as contratações pelo Brasil, oferecendo condições atrativas e uma política humanista.”
O diretor do Instituto Opus, Wilson de Mello Júnior, segue a mesma linha de raciocínio e aponta a evolução dos equipamentos como outro fator para a escassez de mão de obra qualificada para sua operação. “Desde a década de 1990, as máquinas incorporaram muita eletrônica embarcada e as alavancas deram lugar aos joysticks, mas nossos operadores, de forma geral, não acompanharam essa evolução”, ele afirma. “Poucos profissionais dessa área possuem o ensino fundamental completo, sendo que a maioria deles apresenta dificuldades de leitura e raciocínio lógico”, complementa. Ele sabe o que diz, já que o Instituto Opus é o órgão da Sobratema para a capacitação de profissionais nessa área.
Célio Neto Ribeiro, sócio-diretor da Auxter, a distribuidora da JCB no estado de São Paulo, admite que os equipamentos da fabricante britânica são dotados de elevado conteúdo tecnológico. Mesmo assim, ele ressalta que a simplicidade da operação é uma característica marcante desses equipamentos, na medida em que o operador basicamente precisa acionar apenas três botões, dependendo da aplicação a ser executada. “Creio que o maior problema é o volume de obras em andamento no País, que demanda uma quantidade muito grande de máquinas”. Por esse motivo, ele avalia que “a maior dificuldade, nesse caso, é encontrar profissionais interessados em seguir essa carreira”.
Demanda em expansão
Se o cenário atual já é preocupante, os profissionais do setor precisam se preparar para enfrentar o apagão de mão de obra diante das perspectivas futuras. Segundo o “Estudo de Mercado” desenvolvido pela Sobratema, em 2011 o País deverá consumir aproximadamente 78.000 equipamentos para atender ao grande volume de obras previsto. “Como grande parte de nossas obras trabalha em três turnos, isso significa que vamos precisar de, pelo menos, 234 mil novos operadores apenas neste ano”, diz Mello.
Obviamente, esse cálculo desconsidera possíveis renovações de frota ao vislumbrar que todos os novos equipamentos serão adquiridos apenas para expansões do parque já em operação. Mesmo assim, qualquer aumento da frota implicará não apenas a contratação de novos operadores, mas também de mais profissionais de apoio, como mecânicos, lubrificadores, almoxarifes e especialistas em gestão de frota, entre outros. “Então, fica a dúvida de quais instituições estão formando todos esses profissionais e qual a qualidade desse treinamento”, indaga Mello.
Ele ressalta que a produtividade de um equipamento no canteiro de obras está diretamente relacionada à maneira como o operador o conduz. “O número de acidentes de trabalho e os períodos de manutenção do equipamento poderão ser reduzidos na medida em que esse profissional venha a receber a devida qualificação.” Nesse contexto, ele relata as dificuldades enfrentadas no cotidiano das aulas. “Para se ter uma ideia, muitos alunos apresentam dificuldades para resolver uma equação de segundo grau, motivo pelo qual incorporamos aulas de revisão de matemática em alguns dos nossos cursos.”
Raízes do problema
Outro fator que dificulta – ou prorroga – a qualificação dos profissionais é a resistência de muitas empresas em relação à capacitação de seus funcionários. Para Mello, o custo do treinamento desses profissionais representa um investimento da empresa em seu patrimônio e acaba se transformando num diferencial competitivo em um mercado cada vez mais acirrado. “Se levarmos em consideração o valor de um curso desses, constatamos que ele é irrisório se comparado ao custo dessas máquinas.”
Para Elson Rangel, responsável por P&O (Pessoas e Organização) e Engenharia de Equipamentos da área de Apoio Funcional de Equipamentos (AFEq), da Construtora Norberto Odebrecht, o crescimento da economia brasileira e a consequente melhoria dos salários acabaram desestimulando os jovens estudantes a seguir a carreira técnica. “Na maioria das vezes, o objetivo da nova geração é fazer um curso de graduação, mesmo sabendo que, em algumas áreas, um técnico possui salário superior ao de um engenheiro. Esse fator, sem dúvida, agravará ainda mais a situação no futuro, principalmente se nada for feito agora.”
A Odebrecht conta atualmente com uma frota de 4.600 equipamentos, considerando apenas os modelos próprios de médio e grande porte. Segundo Rangel, esse número representa entre 30 e 40% de todos os equipamentos que estão trabalhando em obras da empresa no Brasil e exterior. “Com base no tamanho de nossa frota, temos aproximadamente 9.500 operadores diretos, mas não existe um número exato, pois há uma série de condicionantes, como o tipo de obra e outros”, ele explica.
Receitas de sucesso
A mudança desse cenário, segundo Wilson de Mello Júnior, passa por um trabalho de médio e longo prazo, pelo qual as empresas devem, necessariamente, rever a sua mentalidade. “Os empresários precisam formar uma geração de profissionais empreendedores, independentemente do nível que a pessoa tenha dentro da empresa. Ela tem que se sentir dona da situação e ter a capacidade de tomar decisão para resolver um problema”, ele afirma. “O próprio operador de máquinas, por exemplo, quando atua numa região distante dos grandes centros urbanos, necessita ser um tomador de decisão, pois, caso contrário, a produtividade da obra ficará seriamente comprometida.”
Nesse contexto, ele contesta a burocracia imposta aos cursos de qualificação profissional. “O governo Federal define que alguns cursos técnicos devem ter uma carga de 180 horas. Mas, sinceramente, eu não conheço nenhuma empresa que disponha desse tempo para formar um funcionário.” Para proporcionar maior praticidade a essa área, o especialista defende a adoção de novos conceitos. “Nesse primeiro momento, o ideal é partir para o ensino à distância e intensificar o uso de simuladores”, ele pondera.
Mello cita vários casos de sucesso como exemplos de que é possível reverter essa situação adversa. “A Vale, por exemplo, criou uma faculdade com cursos específicos para profissionais que desejam atuar na área de mineração, enquanto a Petrobras, em função dos investimentos previstos para o pré-sal, montou um programa voltado à formação de profissionais para atender a essa necessidade.” Na área de construção, ele destaca a atuação da Odebrecht, que possui o Programa Acreditar, focado na formação de mão de obra no próprio local em que se encontra o canteiro.
Elson Rangel, da Odebrecht, aposta na união entre os setores privado e público para a formação de novos operadores de máquinas. Entretanto, para atender à demanda no curto espaço de tempo, o especialista aponta uma solução até certo ponto controversa. “A alternativa mais viável para o atual momento é importar mão de obra qualificada do exterior.” O diretor do Opus discorda. “Admito que esse cenário, aliado à crise financeira que ainda perdura em muitos lugares do mundo, proporciona a chegada de estrangeiros altamente qualificados no Brasil, inclusive com salários inferiores aos dos profissionais brasileiros. Porém, temos que investir na mão de obra local para não comprometer a própria evolução do País”.
Pioneirismo nos canteiros
A Odebrecht figura como uma das pioneiras na formação de mão de obra para grandes projetos de infraestrutura. O “Programa de Qualificação Profissional Continuada - Acreditar” oferece uma capacitação composta por dois módulos. O primeiro engloba conhecimentos em saúde, segurança, meio ambiente, psicologia do trabalho e qualidade, cujo objetivo é tornar o profissional mais consciente perante os desafios impostos pelas atividades da construção civil.
O módulo técnico, por sua vez, contempla aulas teóricas e práticas, contando até mesmo com o uso de simuladores de operação para que os alunos se familiarizem com o painel de controle dos equipamentos e com seus principais movimentos. “A carga horária varia entre 120 e 200 horas, dependendo do tipo de equipamento”, afirma Elson Rangel. Segundo ele, o programa já formou aproximadamente 4.000 operadores de equipamentos.
Além disso, o departamento de Apoio Funcional de Equipamentos (AFEq) da construtora, responsável pela gestão dos ativos, divulga informações mensais sobre treinamentos, feiras, congressos e outras atividades que auxiliem na formação contínua dos profissionais da área de equipamentos e na sua reciclagem. “Outra ação da empresa é utilizar-se de parcerias, como a que possuímos com o Instituto Opus para a certificação de profissionais na área de içamento e movimentação de cargas”, diz Rangel.
Outras iniciativas
Entre os fabricantes de equipamentos, o destaque nessa área fica com a New Holland, que lançou um projeto itinerante para a capacitação e formação de operadores de equipamentos. Intitulada “Mãos à Obra”, a iniciativa consiste em um caminhão que percorre o País para promover o treinamento dos profissionais dos clientes da fabricante. “Em sua primeira etapa, o projeto rodou parte do Brasil, entre setembro e dezembro de 2010, e treinou 500 operadores. Dentro e fora do caminhão, as equipes da New Holland apresentam aspectos técnicos e mostraram a forma correta de utilização dos nossos equipamentos”, afirma Marco Borba, diretor comercial da empresa.
A programação do percurso do caminhão é definida em conjunto com os distribuidores da fabricante, de forma que ele percorra as operações dos clientes, como canteiros de obras, mineradoras e áreas agrícolas. “O caminhão oferece toda a infraestrutura necessária para as aulas teóricas e, se necessário, nossos distribuidores disponibilizam os equipamentos para as aulas práticas”, completa Borba.
Esse não é o primeiro projeto da fabricante voltado para a formação de operadores de equipamentos no Brasil. Em parceria com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), ela cedeu equipamentos e contribui para o treinamento de cerca de 800 profissionais em 2008. “A criação desse projeto partiu das construtoras que executavam grandes obras em Pernambuco, tais como a duplicação da BR101 e o Complexo Portuário do Suape”, esclarece Borba. “A ideia era capacitar profissionais para operar escavadeiras, motoniveladoras e pás-carregadeiras nos canteiros de obras da região.”
A Mills, por meio de sua divisão de Rental, também adotou uma estratégia para o mesmo propósito. Recentemente, a empresa fechou uma parceria com a International Powered Access Federation (IPAF), organização sem fins lucrativos que capacita anualmente mais de 80 mil operadores de plataformas aéreas. Segundo informações da locadora, a parceria permitirá a abertura de centros de treinamentos para operadores em alguns dos principais estados do País, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul.
A carga horária dos cursos irá variar de acordo com a escolha do profissional, que poderá optar pela operação de plataformas do tipo tesoura, do tipo articulada ou de lança telescópica. Os certificados para os formandos terão a validade de cinco anos. Segundo a Mills Rental, o aquecimento do mercado, aliado à escassez de profissionais, faz com que a empresa já tenha como objetivo a expansão dos cursos para outras regiões do Brasil.
Instituto Opus completa 10 anos
No mês de abril, o Instituto Opus, braço da Sobratema dedicado à qualificação e treinamento de operadores de equipamentos, completa 10 anos de atuação no mercado. A entidade, que já formou mais de 3.600 profissionais, inseridos em mais de 370 empresas, pauta seus cursos na atualização, certificação e formação dos profissionais que atuam nesse segmento.
“Entre as várias opções, destaco o curso de gestão de frotas, destinado para quem gerencia os equipamentos dentro de um canteiro de obras. Já os profissionais responsáveis pela elaboração do plano de içamento, por sua vez, podem agregar conhecimentos nos nossos cursos de rigger e de supervisor de rigging”, afirma Wilson de Mello Júnior, diretor do Opus. Outra opção apontada pelo executivo é o treinamento de operadores de perfuratrizes não destrutivas, sendo que a Comgás, por exemplo, só contrata empresas cujos operadores tenham o certificado do instituto.
O Opus conta também com experiência internacional, tendo ministrado cursos recentemente na Líbia, Moçambique e Venezuela. “Foram grandes desafios em função das barreiras culturais e do idioma, entretanto, o mais gratificante nesse trabalho é o resultado imediato que obtivemos em termos de segurança e de preservação de vidas”, afirma Mello. “Além disso, essa expansão dos cursos para o mercado externo permite desenvolver novas competências de treinamentos. Por meio dessa troca de experiências com outras culturas iremos aperfeiçoar os nossos cursos.”



