Agentes de transformação — Revista M&T
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M&T nº 246Agosto 2020 Matéria 10 de 15
Sumário
  1. EditorialMelhor do que se poderia esperar
  2. GuindastesHorizonte indefinido
  3. Pás CarregadeirasEvolução no perfil
  4. CenárioMercado em transformação
  5. Especial InfraestruturaA urgência no saneamento
  6. MineraçãoO fim das barragens de rejeitos
  7. FabricanteCombinação de portfólios
  8. AgronegócioA inclusão digital no campo
  9. EmpresaAntecipando tendências
  10. SustentabilidadeAgentes de transformação
  11. EmpresaApoio aos negócios
  12. A Era Das MáquinasImplementos facilitam a escavação
  13. ManutençãoA volta da corrente contínua
  14. EntrevistaDawei He
  15. Coluna Do YoshioA construção do futuro
  16. Painel15 notas e colunas
Sustentabilidade

Agentes de transformação

Debate sobre o descarte de resíduos ganha o mundo, mas o Brasil ainda busca erradicar os lixões e, além de sofrer prejuízos ambientais, desperdiça um potencial elevado no segmento

Exclusivo M&T 11 de agosto de 2020 · Edição 246

Ainda sem solução à vista, os lixões constituem um problema ambiental grave no país, trazendo prejuízos ao solo, água e lençóis freáticos, além de facilitarem a proliferação de doenças como dengue, zika, leptospirose e outras. De acordo com Luiz Gonzaga, diretor-presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), a má gestão dos resíduos é prejudicial em todos os sentidos. “O país tem 3.257 lixões ativos, que deveriam ter sido erradicados em 2014”, comenta. “Sem dúvida, isso é um problema para o meio ambiente e para a saúde da população, mas também mostra a falta de responsabilidade das autoridades, que não priorizam a sua erradicação.”

Apesar da situação crítica, o mercado nacional de resíduos já conta com empresas e associações empenhadas em mudar essa realidade, por meio de tecnologia e gestão eficiente. “É um setor pronto para avançar”, avalia Gonzaga, que é o curador do Núcleo Resíduos Sólidos da BW Expo, Summit e Digital 2020.

A própria Abetre implementou há 6 anos um sistema online de rastreabilidade dos resíduos. O primeiro estado contemplado foi Santa Catarina, seguido por Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. E o próximo é São Paulo, com lançamento previsto para setembro. “Base para o SINIR (Sistema Nacional de Informações dos Resíduos Sólidos), o Manifesto de Transporte de Resíduos é uma extraordinária contribuição para sabermos para onde estão sendo levados os milhões de toneladas de resíduos gerados anualmente”, observa o especialista. “Hoje, o MTR já é uma ferramenta de política pública obrigatória.”

POTENCIAL

De fato, a obrigatoriedade passou a valer para todo o território nacional com a publicação da Portaria nº 280, de 29 de junho de 2020. Trata-se de uma ferramenta online gratuita que possibilita a digitalização dos documentos declaratórios dos geradores, além de informar as movimentações e operações de gerenciamento dos resíduos.

Geração de energia a partir de resíduos tem potencial econômico relevante

Além dessa iniciativa pioneira, o especialista cita outros exemplos no mundo que podem servir de inspiração, ao realizarem a coleta, transporte, tratamento e destinação dos resíduos de maneira ambientalmente adequada. “Não é necessário descobrir a roda, basta que não concordemos que haja afastamento da massa de resíduos, sem responsabilidade”, diz Gonzaga. “É preciso reciclar na fonte, praticar a logística reversa, fazer com que todos participem da ação e não aceitem a procrastinação.”

Segundo ele, o potencial do Brasil é imenso. Isso porque juntas as áreas de coleta, transporte, tratamento, destinação e limpeza urbana equivalem a um mercado de R$ 25 bilhões por ano. Todavia, esse montante pode ser ainda maior, entre R$ 50 bilhões e R$ 70 bilhões, se considerados os investimentos em soluções tecnológicas para atender às demandas legais previstas para o futuro. Entretanto, para explorar esse potencial ainda é necessário superar muitos desafios, como o estímulo à sustentabilidade econômica e financeira, através da tarifa. “Não é possível vencer os desafios do segmento sem que haja o recurso necessário”, pondera Gonzaga.

A seu ver, a aprovação do novo marco regulatório do saneamento deve estimular as prefeituras a implementar a cobrança de tarifa para os serviços da gestão de resíduos, cuja prática é usual no mundo inteiro. “Geramos 79 milhões de toneladas/ano de resíduos, que não são aproveitadas”, aponta. “E a implantação da tarifa dará a sustentabilidade econômico-financeira para que se faça o que é preciso.”

ENERGIA

Até porque o resíduo pode ser usado, por exemplo, para a geração de energia, o que já ocorre em vários países. Para estimular a captação de energia a partir de rejeitos depositados em aterros sanitários, foi criada a Frente Brasil de Recuperação Energética de Resíduos (FBRER), uma aliança entre a Abetre e mais três entidades: Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), Associação Brasileira do Biogás (ABiogás) e Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

Essas entidades firmaram um Acordo de Cooperação para Recuperação Energética de Resíduos com o Ministério do Meio Ambiente, visando a, entre outras iniciativas, coordenar esforços para a remoção de barreiras regulatórias que dificultam o aproveitamento dos resíduos.

O presidente da Abetre ressalta que a FBER é uma união de esforços entre associações fortes, experientes e que desejam melhorar a vida da sociedade brasileira. “Criamos a Frente porque compreendemos que os resíduos podem ser muito bem-aproveitados para geração de energia”, diz ele, destacando que o aproveitamento acontece não apenas por meio da reciclagem, quando há encaminhamento do resíduo para a realização do “blend” (que substitui o carvão coque nas indústrias de cimento), mas também pelo uso da fração orgânica, que é levada aos aterros para posterior produção de metano. “Aproveitamos o biogás e geramos energia elétrica”, ressalta Gonzaga.

Desse modo, o investimento em aterros sanitários regionais e recuperação energética pode eliminar desperdícios e fortalecer a economia circular. “Com um ano de funcionamento, os aterros que substituirão esses depósitos de lixo a céu aberto estarão aptos a produzir metano”, destaca. “E, com as usinas de biogás, podemos ter uma produção elétrica quase dez vezes superior à atual.”

Sobre a BW 2020, o curador ressalta a necessidade de transformação para que a sociedade compreenda seu papel. “Em geral, o brasileiro ainda joga lixo pela janela do carro ou em qualquer lugar”, critica. “Mas podemos contribuir para que o cidadão saiba diferenciar resíduos de lixo por meio de programas e ações bem-elaborados que se tornem agentes de transformação”.

O desafio do hidrogênio

A curadora do ‘Núcleo de Transformação Energética – Hidrogênio’ da BW Expo, Summit e Digital 2020, Monica Saraiva Panik, firmou novos apoios estratégicos para levar o tema ao evento. Para contribuir com a iniciativa, a SAE Brasil e a Ballard Power Systems decidiram criar o ‘Student H2 Challenge’, um desafio estudantil de mobilidade a hidrogênio. Para viabilizar a competição, a Ballard doou dez stacks (pilhas) de 2,1 kW. Além disso, também oferece apoio técnico e cursos online sobre a tecnologia. Todas as universidades inscritas já participam das etapas digitais. Contudo, somente dez serão selecionadas para as etapas presenciais – o que evidentemente considera o cenário da pandemia. O desafio final, com o anúncio do vencedor, acontece durante a BW 2020, em outubro.

Saiba mais:
BW Expo: www.bwexpo.com.br

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