O futuro da geotécnica — Revista M&T
Terça-feira, 27 de outubro de 2026

Tecnologia e inovação para
construção e mineração

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M&T nº 197Dez/Jan 2016 Matéria 9 de 16
Sumário
  1. EditorialMomento de agir
  2. Estudo De MercadoQueda histórica
  3. GestãoLições da crise
  4. Conexpo Latin AmericaEncontro latino
  5. EmpresaMercado em transformação
  6. FresadorasAgilidade na reabilitação de pavimentos
  7. Transporte RodoviárioProntos para o recomeço
  8. ConcretoPortfólio renovado
  9. TecnologiaO futuro da geotécnica
  10. Momento Constructionexpo 2016Ecoeficiência em destaque
  11. A Era Das MáquinasDo empirismo à ciência na compactação
  12. ManutençãoRotação suave
  13. Entrevista"O Brasil tem potencial para máquinas pesadas"
  14. InternacionalPressão nos negócios
  15. Compactos & FerramentasCorte na medida certa
  16. Coluna Do YoshioFazendo mais do mesmo
  17. Painel16 notas e colunas
Tecnologia

O futuro da geotécnica

Empresa brasileira introduz no mercado algumas das mais avançadas técnicas de investigação de maciços rochosos, que são aplicadas na construção e na mineração

Exclusivo M&T 28 de dezembro de 2015 · Edição 197

Em seus primeiros passos de execução, a transposição do canal do Porto de Santos por meio de um túnel submerso de 1.700 m utiliza uma tecnologia de investigação geotécnica até então inédita no país. Já finalizada, a execução do método CPTu (Cone Penetration Test) baliza a implantação das fundações da aguardada obra no litoral paulista, que prevê a instalação de seis módulos em concreto armado, executados a uma profundidade de aproximadamente 21 m. “Fomos buscar essa nova tecnologia na Holanda, onde o ensaio é muito comum devido ao solo encharcado”, comenta a engenheira Paula Baillot, diretora da Alphageos Tecnologia Aplicada, empresa sediada em Barueri (SP) e que executou a etapa de investigação geológica da obra. “Agora, o Brasil está apto a fazer este ensaio.”

CONE HOLANDÊS

Originalmente chamada de “Cone Holandês”, a tecnologia CPTu consiste basicamente em um ensaio no qual uma ponteira (cone) é inserida no solo, levando circuitos eletrônicos para medir o atrito. “Esses sensores estão ligados na lateral e na ponta, sendo que uma haste empurra o cone para baixo e a transmissão dos dados para o computador é feita por meio da própria haste”, explica o geólogo Ruy Thales Baillot, fundador e também diretor da Alphageos, que – além da Dersa – atende ainda a clientes como Petrobras, Sabesp, Odebrecht, Metrô, Vale e Votorantim. “Ou seja, é só empurrar a haste para um transdutor captar lá em cima.”

No entanto, a aplicação da técnica também exige perícia da equipe, que – no caso da Alphageos – é treinada em Londres. Isso porque, quando a penetração torna-se muito profunda, o transdutor começa a apresentar problemas. E, nesse momento, o sinal é perdido. “À medida que vai afundando no solo, o equipamento acumula resistência lateral, até que chega a um ponto que impede a continuação”, detalha Ruy Baillot, explicando que todos os dados são descarregados neste ponto. “Então, é preciso retirar tudo e fazer um pré-furo, até chegar aonde parou a ponteira, colocá-la de novo e continuar até que haja nova interrupção, e assim seguidamente, fazendo pré-furos.”

Aqui, é preciso fazer um parêntesis. Segundo o especialista, já existe uma nova técnica, denominada MudCPTu, que traz um orifício na primeira haste, com um ângulo específico, minimizando a necessidade dos pré-furos. “Nesse caso, injeta-se um polímero que, ao sair pela lateral, lubrifica a haste, permitindo que o processo continue até uma profundidade maior, às vezes até mesmo dispensando a realização do pré-furo”, descreve. “Não tem fio algum, tudo é transmitido pela sensibilidade da haste.”

Também surgida na Holanda há pouco mais de dois anos, a tecnologia MudCPTu foi desenvolvida industrialmente pela empresa sueca Geotech e trazida para o Brasil durante a realização do trabalho em Santos. Aparentemente, não houve tempo hábil para aplicá-la no projeto. De todo modo, seja qual for a tecnologia, um aspecto importante do conceito é a manutenção da ponteira, que custa 25 mil dólares a unidade e precisa ser anualmente calibrada na Suécia, ao custo de 5 mil dólares. “Temos três ponteiras, mas não ainda não sabemos a vida útil delas”, pontua o geólogo, enfatizando assim a incorporação recente da técnica ao portfólio.

Aliás, segundo ele, o que explica o fato de a empresa ainda ser a única no país a deter a tecnologia é uma questão tanto financeira como de cunho cultural. “No Brasil, temos uma mentalidade pouca dedicada a fazer acontecer. O pessoal não quer investir e, mesmo se tem dinheiro, não sabe executar”, alfineta. “Assim, há uma dificuldade em treinar os profissionais e operacionalizar as novas tecnologias.”

RAIOS-X

Além das técnicas de testes com cones, a Alphageos aposta na popularização de uma tecnologia denominada Televisamento 360º que, segundo Rui Baillot, é o “futuro da investigação em rocha”. Totalmente computadorizado, o sistema permite uma análise precisa de todas as características dos maciços rochosos, desde sua composição mineralógica e textura até graus de alteração, incidência de vazios e fissuras.

A operação exige o uso de softwares específicos e gravação digital. Já a obtenção das imagens é realizada por uma câmera japonesa de última geração, com iluminação LED, acoplada a um cabo de perfilagem convencional. Pelos métodos convencionais de sondagem rotativa ou por furos destrutivos, utilizados há pelo menos um século, o estudo implica na inserção na rocha de um tubo com uma coroa de diamantes na ponta para coleta de testemunhos.

Segundo Rui Baillot, trata-se de um processo traumático, pois se perde muito material. “Desse modo, uma perfuração considerada de ótima qualidade tem um índice de 90% em recuperáveis, ou seja, se você fura um metro, recupera 90 cm”, diz. “E isso era considerado espetacular, mas na realidade esses 10 cm que faltam é o pior lugar da rocha, que você definitivamente não vai conhecer.”

Isso não existe com a nova tecnologia de amostragem, garante o diretor. Com a solução, é feito um furo pelo qual desce uma câmera, que televisiona em 360º e permite que se visualize a imagem da rocha (“testemunho virtual”) em qualquer computador. A metodologia possibilita a caracterização do substrato geológico local, definindo a abrangência de maciços rochosos e sua estruturação, além de orientar a estratégia para uma amostragem física representativa do maciço. “É o único método no mundo que dá direção e mergulho das descontinuidades de qualquer tipo de rocha”, destaca.

Segundo os diretores, esse tipo de inovação está provocando uma mudança cultural profunda no setor geotécnico, mas a absorção tende a ser demorada. “Foram necessários muitos anos de testes antes de implementá-la comercialmente”, revela Paula Baillot.

E apesar de estar disponível há mais de 15 anos (a tecnologia foi desenvolvida no Japão em 1999 e o Brasil foi o segundo país a oferecê-la), ainda falta muito para a técnica se consolidar totalmente. Isso mesmo já tendo sido aplicada em obras como os metrôs de São Paulo e do Rio e as hidrelétricas de Jirau e Belo Monte, dentre outras. “O mundo não descobriu isso ainda”, frisa Rui Baillot. “Estamos fazendo a cabeça dos clientes, mas a maior resistência vem dos técnicos.”

Empresa traz opção aos mercados de túneis e minas

Em 2015, ao completar 30 anos, a Alphageos Tecnologia Aplicada apresentou ao mercado uma nova técnica utilizada em túneis profundos e mineração, onde as tensões residuais e deslocamentos de rocha representam perigo de acidentes sérios e queda na produtividade por paralisações. “Se a parede explode de maneira repentina, destrói tudo”, comenta Ruy Thales Baillot, diretor da empresa. É justamente para este tipo de obra que existe uma técnica norte-americana que consiste em realizar um ensaio de fracking (fraturamento), no qual um obturador abre fraturas nas rochas por rompimento. “É nesse momento que a tensão de ruptura é medida”, completa o especialista.

 

 

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