Lições da crise
Mesmo em meio a condições econômicas por vezes adversas, a Brasil Máquinas de Construção conquistou espaço no mercado brasileiro de equipamentos com parcerias estratégicas
Desde a sua fundação em 2007, a Brasil Máquinas de Construção (BMC) já superou diversas adversidades em momentos que o mercado não se mostrava nada favorável aos dealers de equipamentos para construção e mineração. Para superá-las, a empresa lançou mão de uma estratégia agressiva, que inclui o abastecimento do mercado brasileiro com equipamentos de diferentes marcas e países.
Como é de conhecimento geral, o ano passado foi difícil para muitas empresas, pois além de a economia brasileira estancar com um decepcionante crescimento de 1%, houve segundo a Pesquisa de Mercado da Sobratema uma impactante redução de 19% na venda de equipamentos para o setor da construção. “Pelo fato de sermos importadores e ainda não termos fábrica no Brasil, 2012 foi sim um ano complicado”, corrobora Felipe Cavalieri, CEO da BMC. “Tivemos ainda problemas com a variação do dólar, que tirou muito a competitividade de quem era importador, mas também com o aumento de impostos da importação, por pressão das empresas locais, que subiram para 25%.”
Além desses fatores, como lembra o empresário, também contribuíram para travar o mercado a queda do Finame-PSI (Programa de Sustentação do Investimento) a patamares “inacreditáveis” e os “gastos fabulosos do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) para subsidiar juros de máquinas, ao invés de usar esses recursos para financiar o desenvolvimento do setor”.
Desempenho
Mesmo com tantas turbulências, a BMC registrou um volume de venda de aproximadamente três mil máquinas no ano. Antes que o interlocutor assimile a cifra, Cavalieri já avisa que a previsão para 2013 é de superar esse número, totalizando uma venda mensal de 300 máquinas e crescendo 20%. Com tais números, diz ele, a empresa busca manter-se no primeiro lugar em vendas de escavadeiras no Brasil, posto obtido em 2010 e que, ao menos no curto prazo, tende a permanecer com a empresa.
“A BMC mostra sim a que veio, pois, mesmo em meio às dificuldades enfrentadas em 2012, ela conseguiu fechar novas parcerias com grandes empresas””
Felipe Cavalieri
Mas o ano de 2012 foi também marcado pelo início do projeto de construção da nova fábrica da BMC/Hyundai no município de Itatiaia, no Rio de Janeiro, resultado de uma joint venture com a fabricante coreana que deve ser aberta agora em março. “A BMC mostra sim a que veio, pois, mesmo em meio às dificuldades enfrentadas em 2012, ela conseguiu fechar novas parcerias com grandes empresas como Link-Belt, Ammann e Terex Finlay, além de manter as parcerias de sucesso com as empresas Daemo, Hyundai, Merlo, Shantui e a XCMG”, afirma o executivo (leia Box na pág. 53).
Filosofia
Segundo Cavalieri, a filosofia que norteia a empresa é viabilizar que os parceiros que ainda atuam como importadores montem suas próprias fábricas no país, ao passo que conquistem uma participação cada vez mais expressiva no mercado brasileiro, com garantias e condições que justifiquem sua vinda para o Brasil.
É o caso da BMC/Hyundai. Como revela Armando Mantuano, seu diretor regional, a empresa já detém cerca de 20% de market share em escavadeiras hidráulicas acima de 12 toneladas no estado do Rio, sendo que grande parte das obras de construção em território fluminense contam com a operação de equipamentos da marca.
Só na construção da fábrica, a BMC investiu cerca de R$ 400 milhões. Além disso, em dezembro a empresa inaugurou uma nova sede administrativa, localizada em Duque de Caxias (RJ), principalmente para dar suporte ao projeto de produção local. Com a fábrica em solo brasileiro, a BMC espera se tornar ainda mais competitiva, pois, como fabricante local, terá acesso a financiamentos do governo e menos motivos de preocupação com fantasmas como a variação cambial e impostos de importação.
Uma vez instalada como fabricante, a BMC/Hyundai sem dúvida terá muitos incentivos e oportunidades de crescimento. Mas, vacinada pelos obstáculos abruptamente surgidos nos últimos anos, a empresa já sabe que enfrentará as mesmas dificuldades que as empresas locais, como o impasse do governo em dar andamento aos projetos de infraestrutura, só para ficar em um exemplo para lá de crítico.
Para o CEO da BMC, a propósito, a solução para que as obras no Brasil finalmente caminhem é transferir para a iniciativa privada a responsabilidade de gerir os projetos de reestruturação e logística de aeroportos, ferrovias, saneamento, energia e demais setores estratégicos do país. Fica dado o recado de quem superou muita coisa para crescer.
Trajetória é marcada por superação
Em 2003, o atual CEO da Brasil Máquinas, Felipe Cavalieri, atuava na Comexport (antiga sócia da BMC) quando iniciou a operação de importação de maquinários pesados da Hyundai Heavy Industries (empilhadeiras). Segundo ele, essa foi a primeira grande prova de superação que teve de enfrentar: trazer ao país maquinários da Ásia fabricados por uma empresa até então desconhecida, encarando as dificuldades de distância, língua e, evidentemente, preconceitos de mercado.
Como importadora, durante a turbulência econômica de 2008 a empresa enfrentou dificuldades de financiamentos por ter uma estrutura ainda muito frágil. Fora isso, Cavalieri conta que a empresa teve ainda de brigar com os fabricantes locais ligados a multinacionais pelo pouco espaço que sobrou no mercado naquela época. Mas, mesmo em meio à crise e para surpresa de muitos, a BMC alcançou rapidamente o segundo lugar em market share de vendas de escavadeiras no Brasil (hoje é a primeira). “Para nós, uma empresa nova, ingressar em um mercado tão competitivo e conquistar o segundo lugar em tão pouco tempo foi realmente gratificante”, relembra o CEO.
Depois disso, a ascensão foi meteórica, com a empresa comprando as ações da Comexport ainda em 2009 e assinando a joint venture com a Hyunday – com quem estabeleceu parceira há uma década, inicialmente para a importação de empilhadeiras – em 2011. Hoje, sua estrutura de pós-venda conta com mais de 33 pontos de vendas no Brasil e um Centro de Distribuição de Peças em Santana de Parnaíba (SP), composto por 18 mil itens e aproximadamente 130 mil peças em estoque.
Empresa expande portfólio multimarcas
BMC Multimarcas é a denominação para a divisão da empresa que representa diversas marcas, como a fabricante de tratores de esteira Shantui. Outra empresa que há anos integra a divisão é a coreana Daemo Engineering, fabricante de acessórios para escavadeira como rompedores hidráulicos e de mandíbula. Já a XCMG, uma das maiores fabricantes chinesas de equipamentos de construção, integra a divisão de concreto da empresa desde 2006 e tem no Brasil seu terceiro maior mercado fora da China.
De olho no mercado europeu, há dois anos a empresa passou a representar a empresa italiana Merlo, fabricante de manipuladores telescópicos, betoneiras autocarregáveis, coletores e plataformas. Em 2012, a BMC juntou aos seus parceiros a suíça Ammann (linhas de compactação de solo e asfalto, pavimentações e usinas de asfalto), a irlandesa Terex Finlay (britadores de mandíbulas, britadores de cones, britadores de impacto, peneiras inclinadas e peneiras horizontais) e a norte-americana Link-Belt (guindastes).



