Mulheres ganham espaço nos canteiros
Especialistas são unânimes em afirmar que as mulheres se saem melhor que os homens na operação de equipamentos de construção
Aos poucos, elas conquistam espaço em todas as atividades profissionais e até mesmo no canteiro de obras, um ambiente rude e tradicionalmente dominado pelos homens, já é possível constatar uma crescente presença feminina. A bordo da cabine de escavadeiras hidráulicas, de caminhões e outros equipamentos de construção, as mulheres começam a se destacar em profissões antes restritas apenas ao universo masculino.
Na verdade, o emprego de mulheres na operação de equipamentos pesados não chega a ser uma novidade. Em grandes mineradoras, elas já ocupam essa função há alguns anos, pilotando até mesmo gigantescos caminhões fora-de-estrada, muitos deles com até 240 t de capacidade de carga. A novidade se restringe ao setor de construção, segmento no qual a Construtora Norberto Odebrecht figura como uma das pioneiras.
A empresa incentiva a absorção de trabalhadoras mulheres nos canteiros de obras e, por meio do “Programa de Qualificação Profissional Continuada – Acreditar”, oferece uma série de cursos para a formação desse tipo de mão-de-obra, inclusive em atividades como a operação de equipamentos. Com isso, nos canteiros de obras da Odebrecht a presença feminina vai se consolidando como algo natural, até mesmo em projetos que a construtora executa atualmente em Angola, Venezuela e Peru, entre outros países do exterior.
Avanço nos canteiros
Nas obras da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira (RO), o consórcio construtor liderado pela empresa chega a empregar cerca de 1.000 funcionárias. Elas atuam nas áreas de projeto, engenharia, construção e operação de equipamentos como pás carregadeiras, escavadeiras hidráulicas, motoniveladoras, tratores de esteira, caminhões basculantes e fora-de-estrada. Esse contingente feminino representa mais de 10% de toda a mão-de-obra empregada, que totaliza em torno de 9.500 operários.
Com isso, o projeto da hidrelétrica estabelece um marco no setor de construção pesada, que historicamente não excede um máximo de 2% de mão-de-obra feminina em relação ao total de funcionários. “As mulheres são mais cuidadosas, tanto em relação à operação como na preservação das máquinas mobilizadas”, avalia o engenheiro Élson Rangel, responsável pela área de treinamento e controle eletrônico de equipamentos da Odebrecht. O resultado, segundo ele, se reflete em ganhos de qualidade e produtividade, bem como na maior durabilidade dos equipamentos utilizados.
Para isso, as funcionárias passam por um processo de formação profissional, que envolve um módulo de treinamento básico e outro técnico. O primeiro engloba cursos sobre Saúde, Segurança, Meio Ambiente, Psicologia do Trabalho e Qualidade no Trabalho, entre outras disciplinas. O módulo técnico, por sua vez, contempla aulas teóricas e práticas, contando até mesmo com o uso de simuladores de operação para que as alunas se familiarizem com o painel de controle dos equipamentos e com seus principais movimentos.
Medidas de adequação
Outro entusiasta do emprego de mão-de-obra feminina na construção pesada é Eurimilson João Daniel, diretor da locadora Escad. “Sem dúvida alguma, as mulheres demonstram um nível superior de dedicação e de atenção às tarefas”, pondera o executivo. Ele ressalta que sua empresa já vivenciou essa experiência em algumas obras, constatando a destreza e profissionalismo das mulheres nas mais diversas atividades no canteiro de obras.
Os resultados observados estimularam a Escad Rental a incorporar a mão-de-obra feminina a sua equipe de operadores de equipamentos. “Como atuamos na locação, precisamos trabalhar antes na conscientização dos clientes, pois não basta apenas enviar a máquina e a operadora para a obra. Antes de tudo, precisamos verificar as condições disponíveis no canteiro e se estas funcionárias terão um mínimo de infraestrutura para o desempenho de suas atividades cotidianas, como a existência de uma toalete feminina, por exemplo”, diz Daniel.
Antonio Cardilli, gerente administrativo e financeiro do Consórcio Santo Antônio Civil – que executa a obra da hidrelétrica Santo Antônio – e idealizador do “Programa Acreditar” na Odebrecht, ressalta as adaptações que se tornaram necessárias para que o canteiro pudesse receber esse perfil de mão-de-obra. “Foi preciso identificar as necessidades do público feminino para tomarmos todas as providências voltadas ao seu melhor atendimento, como a locação de alojamento e república especificamente para mulheres, o uso de cores diferenciadas nos banheiros femininos e outras ações.” A lista incluiu até mesmo a adoção de programas específicos para a saúde da mulher.
Na opinião de Wilson Mello Júnior, diretor do Instituto Opus, todo esse esforço vale a pena. “Ainda não treinamos nenhuma mulher para a operação de equipamentos, mas a experiência nos ensinou que seu desempenho é melhor em qualquer segmento”, ele afirma. Na área de equipamentos, por exemplo, o especialista ressalta características da personalidade feminina que contribuem para a maior eficiência no trabalho, como a elevada capacidade de atenção e os cuidados com os mínimos detalhes.
Experiências de vida
Esses ganhos foram atestados pelo Consórcio Nova Tietê, composto pelas construtoras Delta e Sobrenco, durante as obras de ampliação da Marginal Tietê, na cidade de São Paulo. Apenas no lote 2, entre as pontes das Bandeiras e do Tatuapé, a implantação da nova pista central desse corredor viário mobiliza sete mulheres, que se revezam em dois turnos de trabalho na operação de equipamentos como escavadeiras hidráulicas, rolos compactadores e fresadoras de asfalto.
Entre elas está Elisama Antunes de Moraes, 34 anos, responsável pela operação de uma fresadora W1000L, da Wirtgen, com 13,8 t de peso operacional. “Apesar de trabalhar todos os dias da semana e de não ter muito tempo para folgas, eu amo o que faço e não pretendo parar; pelo contrário, quero aprender a operar outros equipamentos, como a recicladora de asfalto”, diz ela.
Sob os equipamentos de proteção individual (EPIs), como capacete e óculos, Elisama revela traços da vaidade feminina como um discreto brinco ou um batom. Durante o trabalho, entretanto, ela revela maestria na operação da W1000L, um equipamento com capacidade para fresar pavimentos asfálticos com até 25 cm de espessura e 1 m de largura. E não é só isso, já que Elisama também opera minicarregadeiras. “Quando morava em São Roque (SP), fui contratada para trabalhar como servente numa construtora e lá comecei a aprender a operar equipamentos”, ela explica.
Enfrentando preconceitos, num ambiente predominantemente masculino, as operadoras mulheres revelam seu profissionalismo. No caso da mineira Miriele Lucia de Aredes, que chegou em São Paulo há poucos meses, a pouca idade disfarça sua longa experiência. Apesar dos 22 anos de idade, Miriele opera máquinas como fresadoras de asfalto há quatro anos e, por esse motivo, ela não se intimida com os desafios de um projeto como a ampliação da Marginal Tietê. “O que assustou por aqui não foi o tamanho da obra, porque já fiz maiores, mas sim o trânsito da cidade. Eu nunca tinha visto algo igual”, conclui Miriele.



