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30 de agosto de 2010
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"Não se exercita engenharia sem projeto e planejamento"

Para o engenheiro civil Aluizio de Barros Fagundes, presidente do Instituto de Engenharia, o apagão educacional brasileiro, que atualmente se reflete na escassez de engenheiros e de demais profissionais especializados no mercado, deve ser analisado no contexto de um País que “resgatou a democracia sem uma contrapartida na área de planejamento”. “A base de sustentação da engenharia são os serviços públicos, pois somente criamos massa crítica para o exercício da profissão com a construção de rodovias, ferrovias e demais obras de infraestrutura, um setor que careceu de investimentos governamentais nos últimos 25 anos”, diz ele.

Especializado no setor de saneamento básico, Fagundes ressalta o papel social da engenharia, que viabiliza empreendimentos voltados ao crescimento econômico, distribuição de riquezas e à melhoria das condições de vida dos cidadãos. Tudo isso, obviamente, calcado em planejamento e projetos de qualidade. “Nosso problema é o excesso de regulação em questões exclusivamente técnicas, além da falta de sintonia entre os poderes do Estado, o que causa a ingerência de um deles sobre assuntos de âmbito de outros poderes.” Veja, a seguir, a opinião do profissional sobre o exercício da boa engenharia e sobre sua contribuição para o futuro do Brasil.

M&T - Qual o atual estágio da engenharia no Brasil em termos de exercício da profissão?

Aluizio de Barros Fagundes - Vivemos um momento promissor, mas a engenharia brasileira ainda sente os reflexos de quase três décadas de estagnação. Como toda profissão de ponta, ela é a primeira a refletir os momentos de crise e a primeira a sinalizar os momentos de retomada. Nos últimos anos, a profissão sofreu uma profunda desvalorização num cenário marcado por escassos investimentos em infraestrutura. Isso afugentou os novos talentos em ritmo assustador e agora compromete o projeto de crescimento do País. Para se ter uma ideia, a Escola Politécnica de Engenharia da USP formou, na última década, cerca de 150 engenheiros civis, o que nos dá uma média de apenas 15 novos profissionais por ano. Na Escola de Engenharia de São Carlos, a média na última década foi de 25 engenheiros civis formados por ano, o que demonstra o grau de desinteresse dos jovens pela profissão de engenheiro nesse período.

M&T - Isso provocou uma perda de memória técnica na medida em que os profissionais


Para o engenheiro civil Aluizio de Barros Fagundes, presidente do Instituto de Engenharia, o apagão educacional brasileiro, que atualmente se reflete na escassez de engenheiros e de demais profissionais especializados no mercado, deve ser analisado no contexto de um País que “resgatou a democracia sem uma contrapartida na área de planejamento”. “A base de sustentação da engenharia são os serviços públicos, pois somente criamos massa crítica para o exercício da profissão com a construção de rodovias, ferrovias e demais obras de infraestrutura, um setor que careceu de investimentos governamentais nos últimos 25 anos”, diz ele.

Especializado no setor de saneamento básico, Fagundes ressalta o papel social da engenharia, que viabiliza empreendimentos voltados ao crescimento econômico, distribuição de riquezas e à melhoria das condições de vida dos cidadãos. Tudo isso, obviamente, calcado em planejamento e projetos de qualidade. “Nosso problema é o excesso de regulação em questões exclusivamente técnicas, além da falta de sintonia entre os poderes do Estado, o que causa a ingerência de um deles sobre assuntos de âmbito de outros poderes.” Veja, a seguir, a opinião do profissional sobre o exercício da boa engenharia e sobre sua contribuição para o futuro do Brasil.

M&T - Qual o atual estágio da engenharia no Brasil em termos de exercício da profissão?
Aluizio de Barros Fagundes - Vivemos um momento promissor, mas a engenharia brasileira ainda sente os reflexos de quase três décadas de estagnação. Como toda profissão de ponta, ela é a primeira a refletir os momentos de crise e a primeira a sinalizar os momentos de retomada. Nos últimos anos, a profissão sofreu uma profunda desvalorização num cenário marcado por escassos investimentos em infraestrutura. Isso afugentou os novos talentos em ritmo assustador e agora compromete o projeto de crescimento do País. Para se ter uma ideia, a Escola Politécnica de Engenharia da USP formou, na última década, cerca de 150 engenheiros civis, o que nos dá uma média de apenas 15 novos profissionais por ano. Na Escola de Engenharia de São Carlos, a média na última década foi de 25 engenheiros civis formados por ano, o que demonstra o grau de desinteresse dos jovens pela profissão de engenheiro nesse período.

M&T - Isso provocou uma perda de memória técnica na medida em que os profissionais mais antigos foram saindo da ativa, não é mesmo?
Fagundes - Exatamente. Existe um aspecto nessa situação que posso exemplificar muito bem com minha experiência. Eu, por exemplo, poderia começar a reduzir meu ritmo de produção após tantos anos de exercício da profissão. Mas não tenho condições de implementar esse projeto pelo simples fato de não ter um sucessor para os meus negócios. Muitas empresas brasileiras estão enfrentando a mesma situação neste momento.

M&T - Mas a procura pelos cursos de engenharia aumentou, o que sinaliza um cenário melhor no futuro...
Fagundes - Certo, mas o ritmo ainda está aquém das necessidades do País. Enquanto a Ch ina forma cerca de 300 mil engenheiros por ano e a Coreia forma 80 mil, ganhamos apenas 30 mil novos engenheiros anualmente. Nesse cenário, as empresas estão sendo obrigadas a guindar os jovens talentos à posição de engenheiro senior antes do seu batismo de fogo nos canteiros de obra, ou seja, antes que adquiram uma maturidade profissional compatível com o cargo. Além desse problema, que considero grave, há a questão da importação de mão-de-obra especializada, que chega ao Brasil atraída pelas oportunidades do mercado. Não compartilho da ideia que o país adote uma proteção de mercado nessa área, mas os profissionais brasileiros devem se preparar para uma concorrência acirrada com engenheiros que chegam ao Brasil com um nível de formação elevado. Costumo dizer que o sucesso é irmão siamês da dificuldade, pois isto nos possibilita formar futuros engenheiros de muito talento.

M&T - As universidades brasileiras estão cumprindo esse papel, ou seja, estão formando bons engenheiros?
Fagundes - Na média, eu diria que não. A qualidade do ensino caiu muito nos últimos anos e as deficiências do ensino básico são o maior entrave para a formação dos novos profissionais do setor. Esse problema é o principal responsável pelas altas taxas de desistência nos cursos de engenharia. Para se ter uma ideia, já deparei com alunos de engenharia que não sabiam que um litro corresponde a um decímetro cúbico.

M&T - Mesmo assim, algumas construtoras brasileiras preservam a respeitabilidade da engenharia civil brasileira no exterior ao se manterem competitivas em projetos de barragens, hidrelétricas, rodovias e outras obras de infraestrutura.
Fagundes - Realmente, algumas construtoras souberam se preparar para o processo de globalização e mantiveram a tradição brasileira de uma engenharia pesada de alta qualidade. Elas são competitivas no mercado interno e no exterior, mas enfrentam outros problemas.

M&T - Quais?
Fagundes - No âmbito interno, eu diria que a Lei 8.666 é um deles. Apesar de moralizar as concorrências públicas, ela limita o desenvolvimento da engenharia de ponta ao regular as aquisições do Estado pelo menor preço. Com isso, adota-se o mesmo critério tanto para a compra de papel como para a contratação da obra de uma grande hidrelétrica.

M&T - Uma legislação desse tipo não é necessária numa democracia, na qual a sociedade fiscaliza as ações do Estado?
Fagundes - Sim, mas o que temos no Brasil é um excesso de legislação, de regulação em questões exclusivamente técnicas. Além dos três poderes que caracterizam uma democracia – o Executivo, Legislativo e Judiciário – contamos com instituições que assumiram a função de poderes de Estado: o Ministério Público, os Tribunais de Contas e as entidades de defesa ambiental. Por esse motivo, precisamos urgentemente de uma reforma, não apenas tributária, fiscal e educacional, mas também no tecido político.

M&T - Explique melhor, já que o senhor citou instituições vitais para o exercício da democracia.
Fagundes - Não estou fazendo uma apologia contra essas instituições, mas apenas constatando o excesso de ingerência de um poder sobre o outro. No caso do Ministério Público, por exemplo, vemos jovens juristas que entendem muito de leis, mas pouco de projeto, de planejamento e de boa engenharia. Os Tribunais de Contas, por sua vez, que são o braço do poder Legislativo na fiscalização do Executivo, algumas vezes acabam exorbitando em sua função. Se um Tribunal de Contas diz que algo está errado, ele deve pelo menos indicar o que é o correto, ou seja, como determinada obra deve ser realizada. Isto, obviamente, dentro de parâmetros de projeto, planejamento e atendimento às questões técnicas da obra.

M&T - Há ainda a questão ambiental, na qual o Brasil conta com uma das legislações mais avançadas do mundo, não é mesmo?
Fagundes - É obvio que a defesa do meio ambiente é fundamental para a sobrevivência das gerações futuras. Mas não se pratica engenharia sem a transformação do ambiente, isto é algo inconciliável, pois uma obra sempre interfere na região ao seu redor. Nesse caso, precisamos definir se ela é realmente necessária diante do impacto que provoca no ambiente e, em caso positivo, estabelecer as ações para minimizar ou compensar esses impactos. O que não podemos é ficar cinco anos debatendo a viabilidade ambiental de uma obra como o Rodoanel de São Paulo, cuja construção demandou apenas dois anos.

M&T - Qual a contribuição da engenharia para o país nesse momento de crescimento acelerado?

Fagundes - O engenheiro tem uma formação muito sólida, calcada no raciocínio lógico e numa visão ampla dos problemas, o que permite que esse profissional atue em diversas frentes além da sua própria atividade, como em planejamento, gestão e outras. Portanto, ele tem um papel fundamental do desenvolvimento da tecnologia e no progresso do país. Por esse motivo, como instituição que representa nossa classe, procuramos contribuir constantemente com os governos ao apresentar propostas voltadas ao exercício da boa engenharia e ao crescimento econômico brasileiro.

M&T - Os governos têm sido receptivos a essas contribuições?
Fagundes - Sim. Costumo dizer que, nas últimas duas décadas e meia, a sociedade brasileira resgatou a democracia sem uma contrapartida na área de planejamento. Nessa área, a engenharia pode trazer uma grande contribuição para o nosso crescimento econômico e a melhoria das questões sociais. Para um país que adora regulamentações, vale ressaltar que nosso Código Civil conta com apenas dois artigos voltados à responsabilização numa obra de engenharia e nenhum deles fala sobre a responsabilidade do projeto ou do planejamento. Essa situação precisa ser mudada, pois não se exercita engenharia sem projeto e planejamento.