Sem riscos na frente de trabalho — Revista M&T
Terça-feira, 27 de outubro de 2026

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M&T nº 244Junho 2020 Matéria 2 de 14
Sumário
  1. EditorialA iminência das máquinas autônomas
  2. AutomatizaçãoSem riscos na frente de trabalho
  3. AutomatizaçãoNo limiar da autonomia
  4. InovaçãoCatalisador de mudanças
  5. Especial InfraestruturaO futuro do setor elétrico
  6. PavimentaçãoRecuperando a qualidade do asfalto
  7. PneusVida útil estendida e segura
  8. MineraçãoExtrativismo em tempos de pandemia
  9. EmpresaVitrine virtual
  10. SustentabilidadeA chave da transição energética
  11. A Era Das MáquinasA evolução da concretagem contínua
  12. ManutençãoGarantindo a disponibilidade do motor
  13. EntrevistaSILVIO AMORIM
  14. Coluna Do YoshioOs benefícios inesperados do caos
  15. Painel16 notas e colunas
Automatização

Sem riscos na frente de trabalho

Criado a partir de uma demanda de segurança em áreas de risco, projeto da Barbosa Mello é um dos primeiros a utilizar uma frota de equipamentos não tripulados no Brasil

Exclusivo M&T 10 de junho de 2020 · Edição 244

Se ainda não chegamos à autonomia total, ao menos o sonho de retirar o operador da frente de trabalho, deslocando-o para atividades remotas sem exposição ao risco (e ao erro), já é realidade. Avançando na mineração e no setor agrícola, os equipamentos semiautônomos trazem consigo uma quebra de paradigmas, eliminando a necessidade de presença humana em situações nas quais não é mais decisiva para se extrair o máximo de eficiência e segurança das operações.

A Barbosa Mello Construtora, por exemplo, conta com 17 equipamentos aptos a funcionar de forma não tripulada operando em fase de testes no setor de mineração, para trabalhos de escavação, carga e transporte. A frota semiautônoma inclui três escavadeiras 336, dois tratores de esteira D6T, duas motoniveladoras 140M e uma pá carregadeira 950 (todos da Caterpillar), além de nove basculantes Mercedes-Benz Axor 4144 (6x4).

O projeto surgiu em função de uma demanda de segurança, uma vez que a execução de serviços de engenharia em áreas de risco inviabiliza cada vez mais a presença humana em campo. Na operação semiautônoma e autônoma, a relação direta com a máquina é praticamente nula, substituída por uma Interface Homem-Máquina (HMI – Human-Machine Interface). Ou seja, a partir de uma estação de controle são desenvolvidos protocolos específicos de comunicação entre operadores e equipamentos na frente de serviço, mitigando riscos de acidentes e erros humanos.

Central monitora a atividade por meio de câmeras instaladas em pontos estratégicos

O sistema de equipamentos não tripulados é gerido por um Centro de Controle de Operações Remotas para gerenciamento do projeto e gestão de segurança em tempo real, a partir de uma série de câmeras outdoor com visão 360° conectadas à internet, combinada a recursos como sensores de proximidade, que evitam colisões entre as máquinas e demais obstáculos no ambiente. As unidades de comando permitem a operação dos equipamentos a uma distância de até 1 km.

INTEGRAÇÃO

Apesar de a construção estar entre os menos digitalizados dos setores produtivos, tecnologias como drones, sistemas de automação, redes de alta conectividade e operação por controle remoto já vinham sendo adotadas pontualmente no país. Contudo, para implantar sistemas autônomos, o ‘pulo do gato’ é integrar todas essas tecnologias, redefinindo padrões de engenharia e segurança, TI, gestão do conhecimento, desempenho e treinamento.

A operação da Barbosa Mello fez isso, apoiando o sistema de automação com serviços de terraplanagem a partir de sensores, ferramentas de IoT e engenharia virtual, drones RTK/PPK de alta precisão e infraestrutura de TI com sistemas de redundância e backup das imagens geradas na frente de obra, além de uma rede em malha (meshnet) de alta conectividade. Segundo o gerente corporativo de equipamentos da empresa, Carlos Magno Cascelli Schwenck, a integração tornou-se possível com o apoio da Sitech, braço tecnológico da Sotreq/Caterpillar e parceiro estratégico da construtora no Brasil. “Coube à Barbosa Mello transformar tais recursos em uma metodologia executiva de engenharia”, ele descreve, referindo-se aos processos replicáveis e escaláveis desenvolvidos para a execução remota dos serviços. “Dessa maneira, foi possível eliminar a presença humana em zonas de risco, a partir da integração de tecnologias de ponta, desenvolvimento de novos padrões de operação e pessoas capacitadas”, conta.

Em função da complexidade, a construtora formou um time multidisciplinar para conduzir o projeto, combinando o conhecimento técnico dos profissionais mais experientes à vontade e energia dos mais jovens. “A gestão da mudança teve papel fundamental para garantir o mapeamento dos impactos e fomentar uma mentalidade de abertura a novas formas de pensar e agir”, avalia Schwenck. “Assim, atuamos na definição de padrões técnico-comportamentais para funções até então inexistentes, como operador de equipamento não tripulado, e redesenho de outras para que se adequassem ao novo cenário, como engenheiro de manutenção de não tripulados.”

Na operação semiautônoma e autônoma, a relação direta com a máquina é praticamente nula

E tudo isso foi feito em menos de um ano. A concepção do projeto foi iniciada em março de 2019, sendo que a execução dos primeiros testes em campo, simulando a situação real de obra, ocorreu em setembro. Em dezembro, todo o conjunto dos equipamentos não tripulados já estava em fase de testes e de capacitação das equipes. “O desenvolvimento foi realizado em ondas e de maneira incremental, seguindo os princípios da nova cultura da empresa”, ressalta o gerente.

PRODUTIVIDADE

No projeto, o operador trabalha em uma unidade de comando (shelter), de onde monitora a atividade por meio de câmeras instaladas em pontos estratégicos do equipamento e no local de operação. Dessa maneira, obtém-se o mesmo campo de visão da cabina, além de uma cobertura em 360° do ambiente de operação.

Para garantir a segurança, foram instalados vários dispositivos nos equipamentos, impondo limites de velocidade, rotação, profundidade de escavação e outros. “Assim como ocorre em equipamentos tripulados, a capacitação do operador também é relevante no controle dos equipamentos semiautônomos”, observa Schwenck. “Por isso, a construtora estruturou uma ‘escola’ de formação para qualificar a mão de obra técnica e operacional, permitindo uma evolução contínua para atingirmos níveis de produtividade compatíveis com a operação autônoma.”

Com relação ao consumo, o gerente diz que não se identificou uma variação significativa na operação com os semiautônomos, quando comparada aos convencionais. Entretanto, ele acredita que a tendência é de redução, tendo em vista as limitações de rpm e outros fatores operacionais, como a dispensa de ar condicionado no equipamento, já que o operador trabalha a partir de uma unidade de comando com ambiente climatizado e ergonomicamente adequado à jornada.

Projeto integra tecnologias como drones, sistemas de automação, alta conectividade e controle remoto

No que se refere à manutenção, a quantidade de componentes de eletrônica embarcada exigiu um novo plano de intervenção, assim como de resgate, no caso de o equipamento apresentar problema em área crítica, pois a presença humana não é autorizada. “Reduzimos a periodicidade das preventivas e criamos novos parâmetros de verificação para manutenção e operação”, diz Schwenck. “Em nosso Centro de Controle utilizamos a telemetria para a gestão operacional e o monitoramento de falhas, com atuação importante do inspetor de manutenção.”

Em termos de custo de propriedade (Total Cost of Ownership – TCO), ainda é cedo para afirmar o quanto um equipamento autônomo é mais assertivo que um convencional. Para tanto, ressalta Schwenck, é necessário avaliar a adequação do equipamento a cada situação específica.

“Contudo, é possível listar outros diferenciais da automação que podem agregar efeitos positivos, como máquinas com projeto 3D embarcado e parametrização de determinadas variáveis, incluindo profundidade de corte e escavação, limitações de velocidade, grau de compactação e outras”, acentua.

Seja com for, o projeto de equipamentos não tripulados – simplesmente por permitir a execução de obras em ambientes que inviabilizam a presença humana – sem dúvida representa uma oportunidade de geração de novos negócios. “Este projeto contribui para uma transformação na forma de operar do setor, agregando uma metodologia executiva de engenharia e oferecendo a tecnologia como novo produto nas soluções oferecidas por outras construtoras”, destaca o gerente.

BARREIRAS

Sob a ótica de quem utiliza máquinas no dia a dia, a viabilidade da operação com equipamentos autônomos no Brasil ainda terá alguns obstáculos pela frente. A operação de equipamentos não tripulados apresenta barreiras na área de manutenção, por exemplo, com o distanciamento entre o operador e a máquina, o que impede a detecção de problemas até então perceptíveis pelo contato direto com o equipamento, como perda de potência, vazamentos e folgas excessivas, que passam a ser identificados unicamente por meio de check-list pré-operacional e sistemas de telemetria. “A operação remota pode influenciar, ainda, no tempo para identificação das condições de falhas intermitentes em algum sistema”, explica Schwenck. “Somente a aplicação de um novo modelo operacional permitirá uma avaliação sistemática de eventuais impactos desse afastamento continuado sobre os níveis de cuidado e conservação do equipamento.”

Com desafios pela frente, expansão do uso de equipamentos não tripulados deve ocorrer em ondas

Além disso, há diversos outros desafios a serem superados, como necessidade de volumosos investimentos no desenvolvimento de produtos, questões culturais de aplicação, capacitação de pessoal, impeditivos de marco regulatório, atualização de legislação pertinente e divulgação da aplicação da tecnologia, dentre outros. De modo que a mudança para os autônomos não deve ocorrer da noite para o dia. “Apesar da velocidade das mudanças imposta pela tecnologia, superar esses obstáculos não é algo tão simples”, avalia Schwenck. “Assim, a expansão do uso dos equipamentos não tripulados deve ocorrer em ‘ondas’, impulsionadas pela demanda de setores como mineração, obras de infraestrutura, construção civil e outros.”

Parceria com clientes é chave para projetos da Caterpillar

Com 276 caminhões autônomos em operação até o momento, o impulso em direção à mineração autônoma não mostra sinais de desaceleração para a Caterpillar. Com essa frota, a fabricante atingiu a quantidade de 2 bilhões de toneladas transportadas usando o sistema MineStar Command. O detalhe é que a empresa conseguiu dobrar a quantidade transportada em apenas 16 meses, desde que atingiu 1 bilhão de toneladas transportadas, em novembro de 2018.

Veículos autônomos da Caterpillar já movimentaram 2 bilhões de toneladas no mundo

Segundo o gerente global de soluções autônomas para mineração da Caterpillar, Sean McGinnis, desde o lançamento do Command for Transporting, em 2013, a fabricante vem melhorando a velocidade da implementação. “Estamos lançando o produto em mais sites e implementando-o mais rapidamente, para que mais clientes possam experimentar os ganhos de segurança e produtividade que o transporte autônomo proporciona”, diz.

Recentemente, a empresa também desenvolveu o primeiro sistema de tratores de esteiras semiautônomos para mineração. O sistema utiliza funções automatizadas incorporadas aos grandes equipamentos da marca e tecnologias de controle remoto, que integram o MineStar Command. Atualmente, 25 tratores Cat D11T estão trabalhando de forma semiautônoma em quatro sites na Austrália e nos EUA.

Segundo a empresa, um dos motivos do sucesso na expansão dessas linhas é a parceria estabelecida junto aos clientes, que apontam recursos, funcionalidades e até mesmo modelos que precisam em suas operações. “Além de melhorar a implementação do sistema, a Caterpillar tornou-se consultora para as minas que buscam extrair todo o proveito que a autonomia torna possível”, destaca John Deselem, gerente de operações autônomas da Caterpillar. “Ouvimos as necessidades e trabalhamos juntos para criar a solução ideal às suas minas.”

Volvo reforça o foco com nova área de negócios

No final do ano passado, o Grupo Volvo anunciou a criação de uma área de negócios específica para o fornecimento de soluções em transporte autônomo. Batizada de Volvo Autonomous Solutions, a área surgiu para acelerar o desenvolvimento de produtos nesse segmento, introduzindo soluções em setores como mineração, atividades portuárias e logística. Baseadas em tecnologias de direção autônoma e conectividade, as soluções são adequadas a aplicações que movimentam grandes volumes de materiais em rotas pré-definidas, seguindo fluxos repetitivos.

Caminhões Volvo VM autônomos já operam na colheita de cana de açúcar no país

Segundo o gerente regional de suporte a vendas da Volvo CE Latin America, Boris Sánchez, a atuação da empresa no segmento de autonomia se ancora em três pilares: máquinas inteligentes (com tecnologias que permitem retirar o operador de dentro do equipamento e deixá-lo em condições mais seguras para o controle da operação), eletromobilidade (com redução nas emissões e alternativa energética) e interconectividade (com soluções para assegurar que a operação seja mais eficiente, segura e produtiva). “Com base nisso, os equipamentos tendem a apresentar um aumento de eficiência dez vezes maior em relação aos equipamentos convencionais”, projeta.

A nova área terá centros tecnológicos montados em diferentes lugares do mundo onde a Volvo está presente, para que os especialistas possam acompanhar e dar suporte imediato a situações não previstas. Mas o Brasil deve ficar de fora, pois um dos critérios é que as operações sejam próximas dessas instalações, oferecendo condições de infraestrutura para testes, ensaios e acompanhamentos. “Isso limita a possibilidade de realizar esses testes no Brasil”, avalia Sánchez, para quem algumas características do mercado também pesam na decisão de trazer um equipamento-piloto para testes no Brasil. “Depende muito das regulamentações, do fomento e do interesse do cliente”, ele sublinha, lembrando que uma frota de sete caminhões VM autônomos já opera na colheita de cana de açúcar no país, reduzindo em 4% as perdas por pisoteio das mudas nessa cultura.

Automatização traz ganhos operacionais relevantes na mineração

Além de reduzir a exposição de pessoas em condições de risco, o uso de autônomos na mineração traz um acréscimo de até 15% da produtividade, uma vez que sua utilização ininterrupta, em escala de turnos, melhora o rendimento operacional e otimiza o planejamento da mina. Esse resultado foi aferido pela Komatsu, que desde 2005 – quando o modelo autônomo FrontRunner recebeu validação de campo – já movimentou mais de 2,5 bilhões de toneladas de material ao redor do mundo, em aplicações como cobre, minério de ferro e areias betuminosas.

A Komatsu conta com um Centro de Treinamento para veículos autônomos em Parauapebas

No Brasil, a fabricante conta inclusive com um Centro de Treinamentos para transporte com veículos autônomos, localizado em Parauapebas (PA), na região Norte do país. Um dos destaques da frota é o modelo 930E, que apresenta potência bruta de 2700 hp e capacidade de carga de 320 t.

“Além da produtividade, os autônomos permitem diminuir os custos de carregamento e transporte em até 15%, consumindo menos combustível e emitindo menos CO2”, destaca a empresa, que também aferiu aumento da vida útil dos pneus proporcionado pela tecnologia. “Com a redução de aceleração e manobras abruptas, estima-se que esse ganho possa chegar a 40%, quando se compara com as operações tripuladas.”

Saiba mais:
Barbosa Mello: www.cbmsa.com.br/construtora
Caterpillar: www.cat.com
Komatsu: www.komatsu.com.br
Volvo Group: www.volvogroup.com

Uma publicação Sobratema

A Revista M&T é editada pela Sobratema, Associação Brasileira de Tecnologia e Gestão de Equipamentos.

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