“A agenda ambiental é intrínseca ao nosso negócio” — Revista M&T
Terça-feira, 27 de outubro de 2026

Tecnologia e inovação para
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M&T nº 260Dez/Jan 2022 Matéria 12 de 13
Sumário
  1. EditorialCriação de valor e investimento sustentável
  2. Conteúdo De MarcaOperação virtual de máquinas já é realidade
  3. Estudo De MercadoA força do setor
  4. Especial InfraestruturaProjetos prometem obras em 2022
  5. Centrais De ConcretoModalidades de uso
  6. LançamentoPegada sustentável na concretagem
  7. ReciclagemDesafios para uma agenda sustentável
  8. LançamentoEvolução pede passagem
  9. FabricanteMomento histórico de crescimento
  10. A Era Das MáquinasA evolução da pavimentação com concreto e asfalto
  11. ManutençãoControle ajustado de movimento
  12. Entrevista: Paulo Herrmann“A agenda ambiental é intrínseca ao nosso negócio”
  13. Coluna Do YoshioTendências para os negócios em 2022
  14. Painel17 notas e colunas
Entrevista: Paulo Herrmann

“A agenda ambiental é intrínseca ao nosso negócio”

Exclusivo M&T 13 de dezembro de 2021 · Edição 260

Presidente da John Deere Brasil desde 2012, o executivo Paulo Herrmann – que se aposenta em janeiro, após 22 anos na empresa – acredita que o desenvolvimento tecnológico atrelado ao agronegócio contribui de forma significativa para o crescimento do país, que é o segundo mercado da empresa norte-americana no mundo.

Com toda a carreira profissional dedicada ao setor agrícola, o executivo – que nasceu em uma família de pequenos agricultores do interior do Rio Grande do Sul – vem liderando há anos importantes projetos na área de agricultura de baixa emissão de carbono, especialmente por meio de iniciativas para aumentar a eficiência produtiva da agricultura nos trópicos.

Entre essas ações, o especialista cita o fomento à realização e difusão de estudos relativos a uma atividade agrícola mais intensiva e eficiente, que integre diferentes sistemas de produção em uma mesma unidade produtiva, sob o conceito de ILPF – Integração Lavoura, Pecuária e Floresta.

Formado em engenharia agrícola pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), com MBA em gestão de negócios pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), o executivo possui ampla carreira em empresas de grande porte, tanto nas áreas vendas e marketing, como em planejamento estratégico e relações corporativas.

No âmbito institucional, Herrmann também atua como diretor do Conselho Superior do Agronegócio (COSAG/FIESP) e vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas (Simers), além de participar como membro de diversos conselhos consultivos de empresas públicas e privadas, entre outras funções de liderança desempenhadas no setor.

Em reconhecimento aos serviços prestados ao agronegócio brasileiro, em agosto deste ano recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), outorgado por unanimidade pelos membros do Conselho Universitário da instituição. “É um privilégio testemunhar e participar dessa revolução que a indústria vem passando”, diz ele nesta entrevista exclusiva concedida à Revista M&T. Acompanhe.

  • Após completar dez anos à frente do grupo, qual é o balanço desse período?

O agronegócio sempre foi a força pujante do Brasil e continua avançando. Agora, se inicia um processo de decolagem e crescimento exponencial em nossas produções. O setor de construção também não para. Mesmo com a pandemia, ambos os segmentos continuam em expansão. Nos últimos dez anos, temos trabalhado para levar o melhor aos nossos clientes, ajudando o país a se desenvolver, oferecendo os produtos mais modernos, tecnológicos, inovadores e versáteis para quem entende e domina a cultura de um ambiente tropical. Assim, conseguimos produzir mais para atender às necessidades nacionais e globais, com máquinas avançadas, aumento na produtividade e manejo sustentável. Ao longo da minha carreira, acompanhei muitas transformações. Por meio da mecanização, agricultura de precisão, conectividade e engenharia genética aumentamos a produção agrícola em mais de 500% nos últimos 40 anos, ao passo que a área cultivada cresceu apenas 60%, o que mostra que é possível produzir, preservar e prosperar. Posso dizer que é um privilégio testemunhar e participar dessa revolução que a indústria vem passando.

  • Como avalia o desempenho dos setores agrícola e de construção no Brasil?

Os segmentos agrícola e de construção são importantes pilares para o desenvolvimento do país. A John Deere se orgulha em fazer parte dessa revolução em inovação, sempre visando a qualidade da produção, seja no campo ou na infraestrutura. É importante ressaltar que o desempenho dos negócios pode ser influenciado por diversos fatores, como clima, tipo de solo, área cultivada, tecnologia, custos de produção e comportamento de diversas variáveis econômicas. Conhecer o impacto dessas variáveis é fundamental para os nossos clientes. Mas, no geral, estamos otimistas com esses setores, que continuam aquecidos.

Segundo Hermann, a pandemia ajudou a acelerar a interatividade no campo de operações

  • Em termos de mercado, quais são as projeções para 2022?

Para o fechamento de 2021, esperamos um crescimento entre 20% e 25% nas vendas da indústria em relação ao ano passado. E estamos otimistas com 2022. Nosso mercado é cíclico e, hoje, observamos um dos maiores aumentos em um curto espaço de tempo, mas ainda há muito pela frente, pois variáveis importantes influenciam esse mercado.

  • Quais desafios podem surgir pela frente?

O produtor precisa colher a safra. O mundo continuará precisando se alimentar e nossos agricultores não vão parar de produzir. Estamos no campo, operando, colhendo, plantando. O Brasil é mais do que o celeiro do mundo. Para 2022, a expectativa é que a John Deere saia da pandemia como protagonista na produção de alimentos e energia renovável no mundo. Impactos sempre vão existir, até porque o produtor depende de muitas variáveis. Mas o agronegócio brasileiro é responsável e sustentável. Por isso, estamos sempre em busca da melhor tecnologia para atendê-los de forma eficaz, inovadora, econômica e sustentável.

  • Falando de pandemia, quais aprendizados ela trouxe?

Ao mesmo tempo que restringiu uma série de atividades, diversas outras foram impulsionadas. Nossa jornada sobre conectividade, tecnologia e interação pessoas-máquinas ocorre já há algum tempo. Mas a pandemia ajudou a acelerar isso tudo. Hoje, é possível interagir com o cliente e sua máquina a distância. Nossos concessionários contam com o Centro de Soluções Conectadas (CSC), por meio do qual conseguem monitorar o desempenho da máquina, antecipar ocorrências e evitar paradas indesejadas. É possível orientar o operador para que evite ações inadequadas, que possam comprometer o produto ou a operação. E, se a máquina parar, o concessionário consegue monitorar o problema e ter um diagnóstico remoto preciso.

  • Quais são os destaques atuais em termos de produtos?

Em 2020, iniciamos a produção da colhedora CH-950 para a cultura da cana, que traz um conceito pioneiro de duas linhas simultâneas, possibilitando dobrar a produtividade. Além disso, o modelo também reduz em 30% o consumo de combustível, 60% das perdas e 28% dos tratores de transbordo, resultando em redução de 22% no custo por tonelada. É um projeto ambientalmente sustentável e que contribui para a melhoria das condições no campo, diminuindo a compactação da área em 60%, o que aumenta a produtividade e a longevidade do canavial, além de reduzir as emissões de CO2.

  • E para a construção, o que pode destacar?

Em agosto, lançamos a pá carregadeira 444G, uma máquina versátil para utilização em operações agrícolas, de construção e locação. O equipamento chegou para coroar e somar a mais completa linha de máquinas de construção e agrícola do Brasil, unindo simplicidade de operação e manutenção à capacidade tecnológica.

A inovação aberta é fundamental para desenvolver máquinas inteligentes no campo, diz o executivo

  • Como a tecnologia abre oportunidades para o país?

No campo, desbloquear o potencial tecnológico por meio da conectividade rural e da agricultura de precisão é um ponto decisivo para o desenvolvimento socioeconômico do país. Somente por esse caminho é possível dar um impulso significativo ao setor produtivo que mais contribui com o PIB e para a retomada econômica que todos esperam. Precisamos democratizar o uso da conectividade em áreas rurais com soluções sem custos ao agricultor, que vai produzir de maneira cada vez mais eficiente e ambientalmente sustentável. O benefício gerado pela tecnologia é muito maior do que o valor inicial de investimento, independentemente do porte da operação.

  • Quais ações têm sido realizadas no campo da conectividade?

Há anos temos estabelecido parcerias para levar a internet de forma mais rápida às áreas rurais. Tanto com o projeto Trópico, em 2018, como mais recentemente com a Claro, temos trabalhado para a instalação de torres de transmissão em áreas rurais para impulsionar a cobertura do sinal e, assim, permitir que o produtor se conecte. Hoje, já temos uma demanda superior a sete milhões de hectares com a iniciativa Campo Conectado. Além disso, nossa parceria com a Ericsson busca desenvolver soluções focadas na quinta geração de conectividade móvel e Internet das Coisas, que ajudem a identificar e a solucionar problemas reais do setor.

  • A empresa vem trabalhando na eletrificação dos equipamentos?

Os motores elétricos são parte fundamental do futuro dos equipamentos agrícolas. Porém, a tecnologia disponível ainda não é suficiente para atender às necessidades técnicas das máquinas. Atualmente, as baterias disponíveis não são capazes de prover a autonomia ou a velocidade de recarga necessárias para uso em campo, onde as máquinas operam longe das sedes. Mesmo considerando ser o futuro, ainda é necessário desenvolver mais as baterias, o que pode levar alguns anos. Mas a John Deere vem trabalhando para o avanço da inovação, investindo diariamente US$ 4 milhões em P&D.

  • Apontaria outras tendências tecnológicas para os próximos anos?

Sem dúvida, a inovação aberta é uma tendência que veio para ficar. Por isso, destaco as parcerias com startups e o desenvolvimento de sistemas inteligentes, como JDLink e Operations Center. Há ainda a ferramenta YieldGap, criada em parceria com a startup DataFarm para dar suporte às decisões agronômicas no campo, ajudando o produtor a entender e quantificar as perdas de produtividade que ocorrem durante o ciclo agrícola. Recentemente, a John Deere também adquiriu a startup Bear Flag Robotics, que faz parte da estratégia de desenvolver máquinas inteligentes no campo. Acredito que esse será o caminho.

  • Como vê a importância crescente das pautas de ESG?

A agricultura extrai riqueza da natureza e a transforma em alimento. Por isso, a agenda ambiental é intrínseca ao nosso negócio. Hoje, estamos preocupados com a procedência do alimento e sua rastreabilidade. Nesse cenário, é importante destacar que o agricultor, cuja atividade depende da terra, sabe que precisa conservar a lavoura e o meio ambiente. Estamos no meio de uma terceira revolução, que é o sistema ILPF (Integração Lavoura Pecuária Floresta), estratégia que integra diferentes sistemas produtivos em uma mesma área. Ao mesmo tempo que promove o desenvolvimento da agricultura brasileira, o ILPF protege biomas, trabalha sobre áreas degradadas e promove o reflorestamento, o que resulta em maior produtividade agrícola.

Para o especialista, o Brasil tem oportunidade de assumir protagonismo global no setor agrícola

  • Quais são as expectativas para o futuro?

Em 30 anos, a China e a Índia serão duas das maiores economias mundiais e os maiores importadores de alimentos. São países altamente populosos e sem produção agrícola suficiente. Ou seja, estamos diante de uma oportunidade real para o Brasil assumir o protagonismo. Precisamos construir esse caminho de liderança global, pois ninguém será melhor que o Brasil para mostrar que é possível produzir e preservar. Por meio do sistema ILPF, por exemplo, o Brasil conseguiu superar a meta estipuladas voluntariamente dentro do Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), parte do Acordo de Paris. A ideia inicial era atingir 9 milhões de hectares cobertos com o ILPF até 2030. Hoje, segundo o IBGE, o país já conta com 15 milhões de hectares integrados e está buscando alcançar 30 milhões – o triplo da meta inicialmente proposta.

  • O que representa para uma liderança empresarial receber um título de Doutor Honoris Causa?

É uma honra e uma surpresa, sobretudo por conta da tradição em contemplar pesquisadores pela trajetória acadêmica – o que não é o meu caso, já que tenho apenas o curso superior. A minha história profissional sempre esteve ligada à iniciativa privada e aos agricultores. Esse título é mais uma prova de que a academia e a iniciativa privada têm atributos complementares e absolutamente compatíveis para construir em conjunto não o futuro, mas o presente, que se transforma a cada minuto.

Saiba mais:
John Deere:
www.deere.com.br

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