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08 de agosto de 2017
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Reciclagem

Mineração urbana

Cada vez mais volumosa, sucata eletrônica permite recuperar metais como alumínio, cobre, ouro, prata e paládio, mas sua coleta e processamento apenas engatinham no país
Por Antonio Santomauro

Geralmente, a palavra mineração é associada à imagem de homens e máquinas movimentando grandes porções de terra em lugares isolados. Mas, atualmente, no interior das grandes cidades desenvolve-se uma versão muito contemporânea dessa tradicionalíssima atividade: a mineração urbana, como é chamada a extração de metais preciosos presentes em smartphones, computadores e televisores, entre outros eletroeletrônicos, cuja produção utiliza uma gama bastante diversificada de materiais, sempre passíveis de recuperação e reciclagem.

Quantitativamente, nesses produtos predominam plásticos, vidro e metais mais comuns como o ferro, mas também há metais mais caros – como alumínio e cobre – e, especialmente em placas de circuitos integrados, outros valiosos, como ouro, prata e paládio.

De uma tonelada de sucata eletrônica pode-se extrair, entre outras coisas, algo entre 100 e 150 gramas de ouro. Já a mineração primária movimenta cerca de uma tonelada de minério para produzir cinco gramas de ouro. Mas, enquanto em uma mina o minério está concentrado em uma única localidade, a mineração urbana exige uma extensa rede de coleta de resíduos para conseguir matéria-prima que justifique uma planta produtiva. Por isso, poucas empresas – nenhuma no Brasil – realizam a etapa final do processo, na qual aproveitam resíduos recebidos de todo o mundo (confira Box na pág. 42).

No Brasil, segundo estimativa da ONU (Organização das Nações Unidas), a cada ano são gerados 1,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos. Não existem dados oficiais sobre seu reaproveitamento, mas supõe-se que no máximo 2% desse material sejam reciclados.

LEGISLAÇÃO

Atualmente, a destinação desses e de outros resíduos é regida no país pela PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos), que obriga os diversos setores da economia a estabelecerem com o governo federal compromissos de destinação ambientalmente correta dos rejeitos gerados por suas atividades. O acordo com a indústria de eletroeletrônicos deve ser assinado ainda este ano, e estipulará que partir de 2018 a indústria coletará, por ano, 17% do peso dos produtos vendidos no ano anterior.

Para atender aos requisitos da legislação, a Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), montou no ano passado uma operação batizada como Green Eletron, que operacionalizará a logística re


Geralmente, a palavra mineração é associada à imagem de homens e máquinas movimentando grandes porções de terra em lugares isolados. Mas, atualmente, no interior das grandes cidades desenvolve-se uma versão muito contemporânea dessa tradicionalíssima atividade: a mineração urbana, como é chamada a extração de metais preciosos presentes em smartphones, computadores e televisores, entre outros eletroeletrônicos, cuja produção utiliza uma gama bastante diversificada de materiais, sempre passíveis de recuperação e reciclagem.

Quantitativamente, nesses produtos predominam plásticos, vidro e metais mais comuns como o ferro, mas também há metais mais caros – como alumínio e cobre – e, especialmente em placas de circuitos integrados, outros valiosos, como ouro, prata e paládio.

De uma tonelada de sucata eletrônica pode-se extrair, entre outras coisas, algo entre 100 e 150 gramas de ouro. Já a mineração primária movimenta cerca de uma tonelada de minério para produzir cinco gramas de ouro. Mas, enquanto em uma mina o minério está concentrado em uma única localidade, a mineração urbana exige uma extensa rede de coleta de resíduos para conseguir matéria-prima que justifique uma planta produtiva. Por isso, poucas empresas – nenhuma no Brasil – realizam a etapa final do processo, na qual aproveitam resíduos recebidos de todo o mundo (confira Box na pág. 42).

No Brasil, segundo estimativa da ONU (Organização das Nações Unidas), a cada ano são gerados 1,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos. Não existem dados oficiais sobre seu reaproveitamento, mas supõe-se que no máximo 2% desse material sejam reciclados.

LEGISLAÇÃO

Atualmente, a destinação desses e de outros resíduos é regida no país pela PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos), que obriga os diversos setores da economia a estabelecerem com o governo federal compromissos de destinação ambientalmente correta dos rejeitos gerados por suas atividades. O acordo com a indústria de eletroeletrônicos deve ser assinado ainda este ano, e estipulará que partir de 2018 a indústria coletará, por ano, 17% do peso dos produtos vendidos no ano anterior.

Para atender aos requisitos da legislação, a Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), montou no ano passado uma operação batizada como Green Eletron, que operacionalizará a logística reversa – como é formalmente designada a destinação dos rejeitos – de suas associadas. João Carlos Redondo, diretor de sustentabilidade de Abinee, reconhece: “A coleta de eletroeletrônicos no Brasil vem evoluindo, mas ainda em passos lentos”.

Mesmo não dispondo de dados estatísticos, a diretora do departamento de qualidade ambiental e gestão de resíduos do Ministério do Meio Ambiente, Zilda Veloso, diz que há expansão na coleta de lixo eletrônico no Brasil. “Há maior conscientização da população e maior disponibilidade de locais para descarte de equipamentos eletroeletrônicos”, justifica.

Zilda Veloso lembra, porém, que grande parte dessa atividade ocorre de maneira informal, uma vez que no Brasil ainda não é realizada a etapa final da extração dos metais preciosos das placas de circuitos, que são exportadas após coletadas e trituradas. “Assim, grande parte do benefício econômico da atividade fica no exterior”, diz ela. “O Brasil precisa de políticas de incentivo visando a atrair empresas e tecnologias de reciclagem para cá.”

CENÁRIO

No exterior já existem operações complexas de reciclagem de eletroeletrônicos. Talvez a maior delas seja a conduzida pela norte-americana Sims, cuja rede de unidades próprias alcança cerca de 20 países, em diversos continentes.

Inclusive, algumas operações têm presença no mercado brasileiro, como acontece com a também norte-americana iTran, sócia da Reciclo Metais, empresa de São Paulo que, a cada mês do ano passado, reciclou uma média de 70 toneladas de resíduos eletroeletrônicos, de chapinhas para alisamento de cabelo a grandes equipamentos de diagnóstico médico, passando por computadores, celulares e televisores, entre inúmeros outros itens.

A Reciclo Metais, conta o CEO Marcus Oliveira, separa e envia para recicladores especializados 96% dos materiais extraídos de eletroeletrônicos. As placas de circuitos, especificamente, são exportadas para países como Canadá, China e Alemanha. No mercado externo, atingem um valor médio de US$ 3 mil por tonelada (mas dependendo da quantidade de metais preciosos presente, tal valor pode chegar a US$ 10 mil).

Apostando no potencial de geração de negócios do mercado de reciclagem de eletroeletrônicos, um investidor privado acabou de associar-se à empresa, que se mudou de um galpão de mil metros quadrados para outro, com área 2,5 vezes maior. “A reciclagem de eletroeletrônicos aumentará no Brasil, especialmente em decorrência das legislações, que não param de evoluir”, prevê Oliveira.

Contudo, ainda há entraves ao desenvolvimento dessa atividade. Um deles é a ainda pouco significativa coleta de resíduos, o que obriga a Coopermiti – cooperativa paulistana que reúne mais de 20 recicladores – a ocupar atualmente apenas 30% de sua capacidade total de reciclagem de eletroeletrônicos, atualmente na casa das 100 toneladas por mês. “No Brasil ainda não há uma cultura de reciclagem, nem se sabe bem que eletroeletrônicos podem ser perigosos”, argumenta Alex Luiz Pereira, diretor da Coopermiti.

Além disso, é intensa a informalidade nesse setor, no qual muitas empresas, sem a devida habilitação para a atividade, encarregam-se de retirar os resíduos eletroeletrônicos e extrair apenas as partes mais valiosas, sem se preocuparem com a correta destinação do material que não lhes interessa. “Mas desde o ano passado as empresas de reciclagem precisam ter licença ambiental”, afirma. “E isso já é um avanço no sentido da formalização.”

MECANIZAÇÃO

Se nas operações de reciclagem de eletroeletrônicos de outros países já é possível notar o emprego de equipamentos mais específicos para a manipulação – como garras tipo mexerica para movimentar peças de maior porte até os trituradores –, no Brasil essa movimentação ainda é feita basicamente com empilhadeiras e paleteiras, ou até mesmo de forma manual.

Na Reciclo Metais, os resíduos de eletroeletrônicos chegam acondicionados em big bags, caixas ou paletes, transportados por caminhões. Os big bags, por exemplo, geralmente têm entre 500 e 1.000 kg, sendo retirados dos caminhões por meio de empilhadeiras, quando não esvaziados manualmente.

Mas esse processo pode ser agilizado com o uso de manipuladores, dotados de ganchos próprios para a movimentação de big bags. “No Brasil, esses ganchos ainda são usados basicamente em big bags que acondicionam produtos para a agropecuária, como fertilizantes”, comenta João Cagnoni, diretor comercial da TFD, distribuidora local dos equipamentos da Terex Fuchs. “Mas também podem agilizar a movimentação desses resíduos.”

Com equipamentos de manipulação dotados de garras selecionadoras também é possível imprimir maior rapidez ao manuseio e à separação do material retirado dos big bags. “Inclusive, o uso de garras traz mais segurança, tanto para o operador da máquina quanto para quem acompanha a operação no solo”, observa Maurício Briones, especialista em aplicação de escavadeiras da Caterpillar.

O portfólio da Cat, aliás, inclui desde equipamentos previamente formatados para o manuseio de materiais – inclusive lixo eletrônico, além de outros tipos de sucata –, até escavadeiras customizadas para esse gênero de operação com linhas hidráulicas, garras e engates. “O que determina qual tipo de equipamento deve ser utilizado, se empilhadeira, retroescavadeira ou escavadeira com acessórios, é o volume de material com o qual a empresa trabalha”, ressalta Briones.

Segundo ele, as escavadeiras da Caterpillar destacam-se pelo sistema hidráulico robusto e preciso, capaz de propiciar ao operador movimentos mais rápidos e controlados e, simultaneamente, conferir a força necessária ao desempenho das funções. “Uma das principais preocupações no desenvolvimento desses equipamentos é com o consumo de combustível, aliado ao aumento da vida útil dos componentes de manutenção e à redução nos tempos de máquina parada”, complementa o executivo.

Já a TFD lançou neste ano a versão F de sua linha de equipamentos de manipulação e movimentação de componentes. Os modelos dessa linha oferecem atrativos como a possibilidade de optar por volante ou joystick, cabine mais espaçosa e um novo sistema hidráulico, agora fornecido pela fabricante Rexroth. “O novo sistema é mais eficiente, permitindo maiores velocidades do equipamento, além de agora haver maior disponibilidade de peças no Brasil”, conclui Cagnoni.

RECICLAGEM AINDA É INCOMPLETA NO PAÍS

Apenas um grupo reduzido de empresas – sediadas na Ásia, Europa e América do Norte – realiza a etapa final de extração dos metais preciosos de eletroeletrônicos, em um processo que começa com ações mecânicas de trituração e moagem, passando pela fusão dos materiais via calor até encerrar-se com uma etapa química.

A única com presença direta no Brasil é a Umicore, que em 2015 inaugurou em Guarulhos (SP) – onde já fabricava catalisadores automotivos – uma unidade para moagem, amostragem e análise da matéria-prima da mineração urbana. “Também fazemos aqui a recuperação de metais preciosos em materiais nos quais aparecem em maiores concentrações, como sucata de joalheria”, conta Ricardo Rodrigues, gerente comercial da unidade de refino de materiais preciosos da empresa.

Já as placas de circuito e outros itens dos quais serão extraídos metais preciosos, prossegue Rodrigues, seguem para uma planta na Bélgica, apta a processar 350 mil toneladas de materiais por ano (e já em processo de ampliação para 500 mil toneladas). “No Brasil, a reciclagem vem crescendo, mas ainda é muito informal”, avalia o profissional da Umicore. “E a PNRS deve contribuir para formalizar essa atividade.”

ELETROELETRÔNICOS LIDERAM GERAÇÃO GLOBAL DE RESÍDUOS

Segundo cálculos da ONU, neste ano devem ser geradas globalmente 41 milhões de toneladas de lixo eletrônico, modalidade de resíduos com crescimento mais rápido na atualidade. Na América Latina, por exemplo, o montante de sucata eletrônica projetado para 2018 – 4,1 milhões de toneladas – será 70% superior ao registrado em 2009. No Brasil, especificamente, a geração de 1,4 milhão de toneladas por ano equivale a uma média de 7 kg por habitante, índice inferior apenas aos 9 kg anuais gerados pelos mexicanos. O mais grave, contudo, é que mundialmente as taxas oficiais de reciclagem desses resíduos não chegam sequer a 1%, como informa a ONU, ressaltando que o lixo eletrônico contém ingredientes altamente tóxicos, como mercúrio, chumbo e plásticos bromados, entre outros.