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15 de novembro de 2018
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Reciclagem

Alta tecnologia de destinação

Contando com a primeira central mecanizada da América Latina, a estação de transbordo e triagem da Ponte Pequena conjuga equipamentos pesados e dispositivos industriais avançados na operação
Por Marcelo Januário

Quando se fala em reciclagem de resíduos sólidos, é notório que falta muito para o Brasil atingir níveis mais avançados de tratamento e destinação. Até porque isso passa também por um avanço na conscientização da população, que precisa aprender a separar seu descarte de maneira mais sistemática e responsável. Sem falar nos investimentos que a questão envolve.

Mas alguns dados expõem a dimensão concreta do desafio. A geração de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) no Brasil chegou a 78,4 milhões de toneladas em 2017, em um aumento de cerca de 1% em relação ao ano anterior, como informa reportagem recente do jornal Folha de S.Paulo. Desse total, diz o texto, “a coleta regular atingiu 91,2%, o que corresponde a 71,6 milhões de toneladas”. Sendo assim, um volume expressivo de 6,9 milhões de toneladas de resíduos teve destino totalmente desconhecido.

Mais que isso, de todo o material capturado pelo sistema de coleta regular, 40,9% são descartados de forma inadequada, resultando em um total de 29 milhões de toneladas que são enviadas a lixões ou a aterros sem sistemas adequados para proteção do solo, das águas e do entorno. E a despeito da vigência da Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS) – amparada na Lei 12.305/2010, que qualifica e dá rumos às discussões sobre o tema –, nos últimos dois anos o uso de lixões cresceu 3% no território nacional, passando de 1.559 a 1.610 o número de cidades que fazem uso desse improviso arcaico para a destinação final dos resíduos.

Aparentemente, esse cenário ainda vai demorar a mudar. Como mostra estudo recente da Abrelpe (Associação Brasileira Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), até o ano passado 1.647 municípios brasileiros não contavam com quaisquer iniciativas nessa importante área do planejamento urbano.

PROJETO

Se as cidades brasileiras não conseguem avançar na coleta e reciclagem seletiva, isso não se dá por falta de soluções. E ao menos em termos de tecnologia, o país já conta com algumas experiências exemplares, como o complexo da Estação de Transbordo e Central Mecanizada de Triag


Quando se fala em reciclagem de resíduos sólidos, é notório que falta muito para o Brasil atingir níveis mais avançados de tratamento e destinação. Até porque isso passa também por um avanço na conscientização da população, que precisa aprender a separar seu descarte de maneira mais sistemática e responsável. Sem falar nos investimentos que a questão envolve.

Mas alguns dados expõem a dimensão concreta do desafio. A geração de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) no Brasil chegou a 78,4 milhões de toneladas em 2017, em um aumento de cerca de 1% em relação ao ano anterior, como informa reportagem recente do jornal Folha de S.Paulo. Desse total, diz o texto, “a coleta regular atingiu 91,2%, o que corresponde a 71,6 milhões de toneladas”. Sendo assim, um volume expressivo de 6,9 milhões de toneladas de resíduos teve destino totalmente desconhecido.

Encravada no coração da capital paulista, a estação de transbordo atende a 1,5 milhão de domicílios na região noroeste da metrópole

Mais que isso, de todo o material capturado pelo sistema de coleta regular, 40,9% são descartados de forma inadequada, resultando em um total de 29 milhões de toneladas que são enviadas a lixões ou a aterros sem sistemas adequados para proteção do solo, das águas e do entorno. E a despeito da vigência da Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS) – amparada na Lei 12.305/2010, que qualifica e dá rumos às discussões sobre o tema –, nos últimos dois anos o uso de lixões cresceu 3% no território nacional, passando de 1.559 a 1.610 o número de cidades que fazem uso desse improviso arcaico para a destinação final dos resíduos.

Aparentemente, esse cenário ainda vai demorar a mudar. Como mostra estudo recente da Abrelpe (Associação Brasileira Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), até o ano passado 1.647 municípios brasileiros não contavam com quaisquer iniciativas nessa importante área do planejamento urbano.

PROJETO

Se as cidades brasileiras não conseguem avançar na coleta e reciclagem seletiva, isso não se dá por falta de soluções. E ao menos em termos de tecnologia, o país já conta com algumas experiências exemplares, como o complexo da Estação de Transbordo e Central Mecanizada de Triagem da Ponte Pequena, na região do Bom Retiro, que aponta o caminho a ser seguido. A Revista M&T visitou o local para descobrir porque a instalação vem chamando a atenção de especialistas de várias partes do mundo.

Encravada em pleno coração da capital paulista, a estação constitui a primeira central mecanizada de material reciclado da América Latina, com capacidade nominal de processar 250 t/dia de resíduos recolhidos na região noroeste da metrópole, atendendo a 1,5 milhão de domicílios. Inaugurada em 2013, atualmente a instalação de 19 mil m2 processa 60 t/dia e, mesmo ainda operando abaixo da capacidade máxima, vem contribuindo para a meta de multiplicar exponencialmente a quantidade de resíduos reciclados na cidade.

Fachada da operação: objetivo de elevar a 10% o índice de processamento dos resíduos sólidos na capital

Dividida em duas operações desvinculadas, mas em sintonia, a iniciativa representa um esforço para alcançar a meta estabelecida pela prefeitura, no sentido de aumentar de 1,8% para 10% o índice de processamento dos resíduos sólidos da capital, de acordo com as diretrizes da PNRS. Na Europa, para comparação, esse índice já ultrapassa 16% em alguns países.

Um montante de R$ 26 milhões foi investido na instalação da central, sendo R$ 15 milhões aportados em equipamentos de tecnologia alemã, francesa e espanhola, sem custos para a prefeitura. Isso porque, por obrigações contratuais, a responsável pelo empreendimento é a concessionária Loga (Logística Ambiental de São Paulo), que administra a operação de transbordo e monitora a planta de reciclagem, que por sua vez é parcialmente operacionalizada por cooperativas credenciadas pela Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb), ligada à Secretaria Municipal de Serviços.

TRANSBORDO

Equipamento industrial da Stradler é um dos recursos de alta tecnologia utilizados na central de triagem

Quando chegam à estação, os caminhões coletores – brancos para sólidos domiciliares e verdes para materiais recicláveis secos, cada um deles contendo cerca de 10 toneladas de resíduos – pesam a carga antes de subirem para o transbordo, onde despejam o material em um fosso de 10 m de largura, 50 m de comprimento e 8 m de profundidade, com capacidade para de 4 mil m³. “Os veículos fazem a manobra, projetam-se sobre o fosso e fazem o transbordo”, explica João Paulo Lopes da Costa, analista técnico da Loga.

Compondo uma frota com cerca de 300 unidades, os veículos fazem de duas a três viagens por dia, auxiliados por vans brancas do tipo Sprinter, que recolhem material hospitalar e corpos de animais domésticos, por exemplo. Além dos caminhões especiais que fazem a coleta e trazem o material, em um fluxo contínuo, atuam de modo permanente no local uma minicarregadeira (que alimenta a planta e adequa o material para abrir espaço para os caminhões) e duas plataformas de trabalho aéreo, uma telescópica e outra tesoura (que atuam na manutenção predial). Também há um a caminhão “delivery”, que faz a limpeza do túnel das carretas, e um caminhão-pia, para limpeza das ruas internas e do fosso.

Material reciclável seco percorre quilômetros de esteiras no processo de triagem

No centro da operação, a frota da estação conta com quatro escavadeiras Volvo EC 380 DL com peso operacional de 38,3 t, sendo duas unidades de reserva. Girando 180º em um processo contínuo, as escavadeiras têm a responsabilidade de transferir o resíduo não reciclável lançado no fosso para as 25 carretas VW Constellation 19330 (equipadas com implementos Rossetti de 55 m3), que o levam à sua destinação final, no aterro sanitário de Caieiras (SP). “Em outros locais, são utilizadas garras mecânicas, mas com nosso contingente de resíduos, não íamos conseguir suprir a logística de entrada e saída”, comenta Costa. “É verdade que, pelo peso, a esteira das máquinas quase arrebenta todo o nosso piso, mas não há nada melhor para fazer a transferência, com estabilidade, capacidade de carga e velocidade de operação.”

 

Em uma operação simultânea, o processo inclui a disposição da coleta, passa pelo carregamento de carretas com o resíduo perecível, pela triagem mecanizada do material reciclável seco e pela descontaminação manual das esteiras, até finalizar com a prensagem e armazenamento para destinação final do produto

São dois operadores por máquina, com a troca feita a cada duas horas em função da insalubridade do recinto. Já os treinamentos do pessoal (que já foi terceirizado, mas não é mais) são feitos nos finais de semana. “Semanalmente, temos uma pausa – mas não paramos a operação – aos domingos, para lavar a unidade”, informa o especialista, explicando que a Loga não costuma contratar diretamente no mercado, devido à complexidade e especificidade da atividade. “A maioria dos operadores vem da própria empresa, começando com a minicarregadeira, passando depois para as outras máquinas até se tornarem profissionais da área”, explana.

Em relação à manutenção das máquinas pesadas, a operação conta com oficina própria. Mas antes e ao final da operação diária, a equipe de manutenção faz o check-list de todos os equipamentos, incluindo limpeza, troca de peças, lubrificação e calibração. Além disso, as máquinas eventualmente também são paradas no meio do expediente para verificação do combustível e nova lubrificação. “O maior problema está relacionado às mangueiras, que estouram com a intensidade da movimentação”, afirma Costa. “Algumas vezes, também surgem problemas no motor, mas isso é muito raro.”

CENTRAL

Na central de triagem, situada logo ao lado do fosso, entra em cena a tecnologia industrial, que utiliza princípios ópticos, magnéticos e mecânicos para separar os resíduos por formato, material e até mesmo cor. Para tanto, o material reciclável seco (papelão, plástico, papel e metais) é depositado pelos caminhões em uma área da central, a partir de onde são sequencialmente separados, prensados e enfardados por meio de processos mecanizados.

Nesse processo ininterrupto, os resíduos de maior volume e vidro passam por pré-seleção manual, em uma operação feita por catadores das cooperativas. A próxima etapa consiste na passagem dos resíduos por um equipamento balístico, que identifica resíduos bidimensionais (como papel ou papelão) e tridimensionais (como latas e garrafas).

Todo o trajeto dos materiais ocorre por quilômetros de esteiras automatizadas e os sacos são abertos por uma máquina, que tem capacidade de separar cerca de dez diferentes tipos de resíduos. Em seguida, o material é encaminhado para um equipamento chamado Trommel, da marca Stadler, semelhante a uma peneira rotativa e que faz a separação do material por tamanho. “Também é utilizado um equipamento chamado double vacuum, com dois cilindros que trabalham com ar comprimido”, descreve Costa. “De um lado faz a sucção e, de outro, expele. Assim, o plástico sobe, enquanto o papel mais pesado cai.”

Em outro ponto, uma esteira segmentada reduz os resíduos em pedaços menores, que caem por pequenas aberturas. Depois, a esteira passa sob um tambor imantado que – por meio de magnetismo e indução elétrica – retira os metais, transferindo-os para uma esteira à parte, onde são separados por tipos. “O metal ferroso é atraído e jogado em um duto”, conta o analista.

Mas os resíduos restantes ainda precisam ser separados por tipo e cor, o que é feito por modernos escâneres ópticos, que fazem a leitura e classificam o material. “Aqui fica uma das máquinas mais interessantes da operação”, destaca Augusto Colombo, técnico em mecatrônica da Loga. “Adaptado ao resíduo brasileiro, o escâner também é um dos equipamentos mais avançados da central.”

Produzido pela francesa Pellenc, o escâner possui lâmpadas halógenas que emitem feixes de luz sobre a esteira, fazendo com que o material que passa sob a luz reflita um espectro no equipamento, identificando o tipo de material que está passando. “Ele consegue identificar se é Tetra Pak, papel, sacola, PET, o que for”, conta o técnico.

Enfim classificados e separados, os materiais são depositados em “bunkers” abaixo da estrutura. Quando esses receptáculos enchem, são liberados para a área das prensas, onde os materiais triados são compactados automaticamente por equipamentos da marca espanhola Imabe, em fardos de 200 a 300 kg cada um, que ficam à disposição para comercialização em um depósito temporário localizado na área externa da central.

Nesse ponto, uma minicarregadeira e duas empilhadeiras elétricas de pinça atuam no manuseio dos fardos finalizados. “Geralmente, o material é vendido por leilão, sendo que o próprio comprador vem retirar”, diz Costa, lembrando que o dinheiro arrecado é revertido pela prefeitura para as cooperativas de catadores.

E assim o ciclo finalmente se encerra. Com monitoramento por câmeras, todo esse complexo processo é controlado por softwares da ProControl em uma sala isolada no alto, entre o transbordo e a central, que gerencia o maquinário e as operações. “As pessoas não fazem ideia do que acontece em relação aos resíduos, pensam que eles desaparecem por mágica”, diz Costa, apontando para o layout da instalação em um monitor. “Pensam que o material desintegra sozinho, não imaginam que há toda uma estrutura de engenharia para fazer a destinação correta disso tudo.”

IMPLANTAÇÃO DE CENTRAIS É DESAFIO NO PAÍS

Maquete da estação de transbordo e triagem da Ponte Pequena: instalação de novas operações ainda enfrenta restrições

Menção honrosa no 18º Prêmio Fiesp de Mérito Ambiental, o projeto da Estação de Transbordo e Central Mecanizada de Triagem da Ponte Pequena constitui um avanço vital para a cidade, a saúde da população e o meio ambiente. “A destinação final de resíduos sempre foi um desafio histórico para a cidade de São Paulo”, comenta João Paulo Lopes da Costa, analista técnico da Loga.

Segundo ele, mais três estações totalmente mecanizadas devem ser instaladas na cidade de São Paulo, incluindo uma nova unidade na Rodovia Anhanguera, que já possui licença prévia da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e aguarda a licença de instalação. Todavia, diz o especialista, a implantação de uma operação como essa provoca reações de diversos tipos, o que exige uma maior integração com a população, para mostrar os seus benefícios. “Aqui, como o transbordo está encravado no centro da cidade, já configura uma situação muito complicada, pois enfrenta várias restrições, desde os munícipes até o poder público”, afirma. “Se não houver um entendimento, pode ter lei e penalizar, mas não vai mudar nada, pois isso tem de vir da população.”

Isso porque as pessoas precisam entender a importância dessas instalações, além de terem o cuidado de separar o material. “Possuímos maquinário, engenheiros e profissionais, mas falta a conscientização, pois o problema está lá no início, na geração do resíduo”, avalia o especialista, destacando outra questão muito pertinente. “Os estrangeiros chegam aqui e dizem que jogamos dinheiro fora, assustados com o desperdício, tanto econômico como ambiental.”

USO DE TECNOLOGIA ESBARRA NO ALTO CUSTO

Equipamento de última geração, o escâner óptico exige investimento de alto custo, mas pode alavancar os índices de reciclagem no país

Importados, escâneres ópticos como os utilizados na operação da Loga representam um investimento de alto custo, dificultando uma maior adoção pelas cooperativas em todo o país. “Associado a políticas públicas, somente o crescimento do mercado da reciclagem pode incentivar a produção nacional destes equipamentos e a consequente redução de custos”, avalia a engenheira Claudia Khair, especialista da Recicloteca (Centro de Informações sobre Reciclagem e Meio Ambiente). Segundo ela, a indústria brasileira está bem atenta às novas tecnologias na reciclagem e que, inclusive, já há fabricantes locais para soluções como pás e garras mecânicas, esteiras rolantes e prensas especializadas. “O investimento em tecnologia poderia se tornar viável e, assim, permitir que alcancemos melhores índices de reciclagem em nosso país”, conclui.

 

Saiba mais:

Loga: www.loga.com.br

Recicloteca: www.recicloteca.org.br