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27 de agosto de 2015
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Mercado

A chave do negócio

Segmento da construção confirma retração de 50% nas vendas no primeiro semestre, enquanto setor de máquinas agrícolas exibe fôlego maior, porém está mais cauteloso
Por Marcelo Januário (Editor)

Segundo dados da Abimaq, as vendas no setor de equipamentos pesados para construção caíram 50% até maio deste ano, em comparação ao mesmo período no ano passado. Em 2014, o mercado fechou com 25 mil máquinas comercializadas, enquanto neste ano cogita-se algo como 13 mil unidades. O resultado confirma os prognósticos dos players realizados no primeiro trimestre, conforme M&T registrou em sua reportagem de capa da edição 189 (de abril).

Mas é importante olhar de forma adequada para esses números. Excluindo as compras do MDA, a retração fica em 35%. Além disso, como destaca Afrânio Chueire, presidente da Volvo CE Latin America, uma coisa é o mercado consumidor brasileiro, outra é o que a indústria está produzindo. “A produção caiu 18%, sendo que só esse dado já é importante, pois não é igual aos 50% que afetam as vendas”, diz ele. “E isso em função das exportações, uma vez que praticamente todas as indústrias do segmento exportam.”

Na construção, como frisa Chueire, apenas o Brasil tem uma indústria de equipamentos completamente estabelecida, com vários fabricantes e linhas de produção, mas ainda falta algo. “Temos uma condição particular, que deve ser preservada”, advoga, citando a necessidade de aumento da competitividade dos produtos nacionais, o que só poderá ser atingido com estímulos à produtividade. “E produtividade não diz respeito apenas à mão de obra, mas também a processos, a compras e a políticas de governo”, enfatiza. “E as políticas governamentais ainda não alcançaram o que a indústria precisa.”

Em unidades, houve queda também na exportação, de 22%. Assim, o comércio exterior compensa em parte, mas não equilibra totalmente os negócios. Por isso, o executivo da Volvo concorda que a indústria de equipamentos está sofrendo. Segundo ele, a queda de produção e do mercado tem reflexos não apenas na indústria, como também nos sistemistas e, principalmente, na rede de distribuição. “Nós temos fôlego para suportar uma queda de 50% nas vendas, mas a rede não tem”, alerta. “E esse tem sido o foco do nosso trabalho, para sustentar a rede.”

O mesmo acontece com outras empresas. A CNH, por exemplo, não tem tanta exportação. Apenas alguns produtos produzidos no Brasil são vendidos mundialmente, mas o volume ainda é muito pequeno. Isso torna o momento mais desafiador. “É bem assustador”, reage Roque Reis, vice-presidente comercial e de marketing da Case CE para a A


Segundo dados da Abimaq, as vendas no setor de equipamentos pesados para construção caíram 50% até maio deste ano, em comparação ao mesmo período no ano passado. Em 2014, o mercado fechou com 25 mil máquinas comercializadas, enquanto neste ano cogita-se algo como 13 mil unidades. O resultado confirma os prognósticos dos players realizados no primeiro trimestre, conforme M&T registrou em sua reportagem de capa da edição 189 (de abril).

Mas é importante olhar de forma adequada para esses números. Excluindo as compras do MDA, a retração fica em 35%. Além disso, como destaca Afrânio Chueire, presidente da Volvo CE Latin America, uma coisa é o mercado consumidor brasileiro, outra é o que a indústria está produzindo. “A produção caiu 18%, sendo que só esse dado já é importante, pois não é igual aos 50% que afetam as vendas”, diz ele. “E isso em função das exportações, uma vez que praticamente todas as indústrias do segmento exportam.”

Na construção, como frisa Chueire, apenas o Brasil tem uma indústria de equipamentos completamente estabelecida, com vários fabricantes e linhas de produção, mas ainda falta algo. “Temos uma condição particular, que deve ser preservada”, advoga, citando a necessidade de aumento da competitividade dos produtos nacionais, o que só poderá ser atingido com estímulos à produtividade. “E produtividade não diz respeito apenas à mão de obra, mas também a processos, a compras e a políticas de governo”, enfatiza. “E as políticas governamentais ainda não alcançaram o que a indústria precisa.”

Em unidades, houve queda também na exportação, de 22%. Assim, o comércio exterior compensa em parte, mas não equilibra totalmente os negócios. Por isso, o executivo da Volvo concorda que a indústria de equipamentos está sofrendo. Segundo ele, a queda de produção e do mercado tem reflexos não apenas na indústria, como também nos sistemistas e, principalmente, na rede de distribuição. “Nós temos fôlego para suportar uma queda de 50% nas vendas, mas a rede não tem”, alerta. “E esse tem sido o foco do nosso trabalho, para sustentar a rede.”

O mesmo acontece com outras empresas. A CNH, por exemplo, não tem tanta exportação. Apenas alguns produtos produzidos no Brasil são vendidos mundialmente, mas o volume ainda é muito pequeno. Isso torna o momento mais desafiador. “É bem assustador”, reage Roque Reis, vice-presidente comercial e de marketing da Case CE para a América Latina. “É o mercado que foi em 2007, com uma pequena diferença: na época, havia dez concorrentes e agora temos possivelmente uns 30, contando os importadores.”

Além de margem de preço baixa, o executivo cita fatores como aumento de custos, falta de financiamento e até inadimplência dos clientes, por falta de pagamento das obras. “Hoje, pode dar a taxa de juros zero ou negativa, mas o cliente não compra, pois não tem obra”, espanta-se. “Estamos sentados em cima de uma mina de ouro, que é a falta de infraestrutura em toda a América Latina, mas precisa embalar.”

Neste contexto, nem mesmo a recente rodada de concessões serviu para animar. Segunda rodada de algo já anunciado antes, o novo plano de 198 bilhões tenta sanar três gargalos que emperravam sua execução, incluindo a definição da equação financeira (melhorar a taxa de retorno para os investidores), dos marcos regulatórios (garantir segurança aos investimentos de longo prazo) e do arcabouço de garantias (para a empresas poderem participar dos processos de licitação). “Neste momento, não temos nenhum desses aspectos”, dispara Chueire. “Está muito melhor que há alguns anos, pois os fundamentos são muito melhores, mas ainda temos um nó político a ser resolvido, para que as medidas fiscais aconteçam.”

Portanto, ao menos no curto prazo, nada deve se efetivar, além de haver uma população de máquinas ociosa. “As concessões preveem algum volume lá na frente, mas todos sabem quanto tempo isso demora a se operacionalizar”, diz Reis. “Além de existir uma frota de equipamentos muito grande no mercado, que ainda vai ter de ser usada.”

AGRÍCOLA

No setor de equipamentos agrícolas, o cenário é diferente. No segundo semestre, que deve ser uma continuação do primeiro, o mercado de tratores, sozinho, deve ficar em torno de 40 a 50 mil unidades. Para colheitadeiras, o ano deve fechar em torno de 4 mil a 4,5 mil máquinas.

Diferentemente da construção, os fundamentos do setor agrícola ainda estão sólidos e, exceto pelo setor de cana de açúcar, não houve uma queda muito acentuada. “Os agricultores vêm de uma sequência muito positiva de aproximadamente cinco anos, em que o mercado encorajou-se, contraiu ‘bons’ endividamentos, com longo prazo e taxas baixas, pois todo mundo estava muito alavancado”, sublinha Rafael Miotto, diretor de planejamento e portfólio de produtos da CNH Industrial.

Recentemente, algumas notícias também foram animadoras, como o Plano Safra, com montante 20% acima do que na safra anterior, e o Moderfrota, que cresceu. Por isso, setor exibe fôlego maior que a construção, mas não o suficiente para garantir a tranquilidade absoluta dos players.

Afinal, houve queda de 25% nas margens e acentuou-se uma maior cautela nos investimentos. “Os bancos de fábrica e outros meios de fomento estão olhando com um pouco mais de critério a expansão do mercado, especialmente o consumo dos grãos na Ásia, onde estão nossos principais mercados de exportação”, avalia Bernhard Kiep, vice-presidente de marketing, pós-venda, gestão de produtos e desenvolvimento de concessionárias da AGCO para a América do Sul. “Se os juros vão para 9,5% em colheitadeiras, por exemplo, o agricultor puxa o freio, pois a chance de ganhar é menor.”

Para Miotto, as maiores dificuldades estão nos repasses. “A chave do negócio é a velocidade da liberação, a disponibilidade real, pois o número teórico é interessante, as taxas de juros ainda estão no patamar do último anúncio – e tínhamos receio que elas subissem –, o nível de financiamento segue na faixa dos 90%, dependendo do tipo de cliente, mas havia uma morosidade muito grande do sistema financeiro, o que dificultava o fechamento de negócios”, avalia.

POTENCIAL

O que não muda são as perspectivas positivas, pois a demanda de máquinas é dada como certa no país, um dos mais promissores no mundo para o agronegócio. “Em relação aos EUA, o horse power instalado por hectare nas fazendas brasileiras está em cinco para um, enquanto na Europa é de um para sete”, compara Kiep. “Além disso, a janela (tempo entre plantio e colheita) está diminuindo muito e a variação climática está ajudando. Assim, a necessidade de maquinário aumenta.”

Outro ponto significativo é a necessidade de renovação das frotas, que deve necessariamente ser realizada para manter a produtividade do setor. “Tem frota envelhecida, existe até agricultura sem máquina, o que traz um potencial impressionante para ao menos dez anos”, corrobora Miotto. “A agricultura familiar também ganhou estímulo e está começando a se mecanizar desde a criação do Mais Alimento, que inclusive a América Latina quer copiar.”

País não conta com programa de renovação de frotas na Linha Amarela

Segundo especialistas, ainda existe uma frota muito antiga de máquinas para construção no país, o que representa um potencial para a indústria, à medida que esses clientes tenham acesso aos equipamentos. “Mas não existe um programa de renovação como ocorre no segmento de caminhões”, comenta Afrânio Chueire, presidente da Volvo CE Latin America. No geral, a Linha Amarela inclui equipamentos de alta produtividade, que duram cinco anos em média. “É algo em discussão, mas nunca conseguimos chegar a uma fórmula mágica para conseguir estimular essa renovação”, pontua Roque Reis, vice-presidente comercial e de marketing da Case CE para a América Latina. “Algum dia, elas se transformam em sucata, mas enquanto tiverem algum respiro de sobrevivência, haverá reforma e uso, principalmente em cidades pequenas, fazendas etc., que não precisam de produtividade.”